ILUSTRADO
Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009, 21h:35
A
A
ESTREIA
Paulo César Pinheiro lança seu 1º livro
Aos 60 anos, com "Pontal do Pilar", compositor atesta que uma mesma matéria-prima, neste caso, a palavra, pode resultar em produtos distintos
Lucas Nobile
Agência Estado
Soberba e genialidade não costumam viajar no mesmo vagão. Pelo menos não no de Paulo César Pinheiro Após 41 anos de uma consagrada carreira como compositor e letrista, ele poderia muito bem incorporar a arrogância e enclausurar-se no conforto de sua residência em Laranjeiras, Rio de Janeiro. Porém, na contramão da inércia, ele não só acaba de lançar seu primeiro romance, como já tem mais dois finalizados e um quarto idealizado na cabeça. Aos 60 anos, com "Pontal do Pilar" (Editora Leya, 136 págs., R$ 34,90), Pinheiro atesta que uma mesma matéria-prima, neste caso, a palavra, pode resultar em uma infinidade de produtos distintos, com o mesmo rigor qualitativo. Com mais de 900 composições gravadas por grandes nomes como Clara Nunes, Elis Regina, Edu Lobo, Tom Jobim, Baden Powell e João Nogueira, o compositor e escritor dispensa o mesmo fino trato às palavras em seu romance. O processo de feitura do livro se deu de forma estranha, como ele diz. Desde adolescente, época em que Pinheiro era um leitor voraz, já alimentava o desejo de escrever um romance. A ideia, deixada de lado, retomou de maneira inesperada em fevereiro de 2008. Na madrugada de sexta-feira para sábado, em pleno carnaval, ele levantou da cama e foi direto para sua mesa de trabalho. Ainda trôpego e aéreo pelo sono, escreveu duas páginas e voltou para a cama. No dia seguinte, ao ler o que havia escrito, concluiu que estava diante do primeiro capítulo de um romance, já com quatro personagens e a trama central desenhada. Empolgado com o surto criativo, passou a dormir poucas horas por noite, a escrever ininterruptamente, concluindo o livro em dez dias. "Pontal do Pilar" escapa ao convencional pela intimidade de Pinheiro com a língua portuguesa. Em uma trama cinematográfica, que se passa em uma cidade imaginária de beira de cais, o autor mais apresenta os personagens do que faz profundas análises psicológicas. E que não seja encarada como devaneio a afirmação de que "Pontal do Pilar" tem passagens tão brilhantes a ponto de lembrar João Guimarães Rosa. Com pleno domínio da palavra, sempre ancorado no abstrato, Pinheiro revela o simples sem ser óbvio, em trechos como: "Zulaia, mulher de Quiango, e mãe dos quatro, era mansidão de ribeirinho. Passava chocolate nas palavras. Criou os filhos com cacau e creme de ovos na voz. Nunca brigou nem teve frase gritada." Pela exaustão, Pinheiro decidiu amansar a caneta. Depois de escrever "Pontal do Pilar", "Matita, o Bruxo" (que deve ser lançado na Flip em 2010) e "Santa Meretriz" (previsto para 2011), o autor já tem o quarto romance na cabeça. E os projetos continuam pululando. No começo de 2010, mais uma peça de teatro de sua autoria deve estrear. Ele também prepara um livro sobre suas letras, explicando a origem das canções. Com o estoque de versos cheio, o escritor também tem mais livros de poesia, entre eles um, que deve ser o primeiro a ser lançado, com 200 sonetos.