ILUSTRADO
Segunda-feira, 02 de Agosto de 2010, 18h:59
A
A
OZU/WENDERS
Paradigmas do documentário contemporâneo
Abrir a retrospectiva de Ozu com o filme "Tokyo-Ga" de Win Wenders vai além de revelar o objetivo didático e formulador de olhares do projeto "Imagens em Pauta"
Luiz Borges*
Especial para o Diário de Cuiabá
Uma oportunidade ímpar para se ver imagens e pensar sobre os processos de sua construção! Este é o importante mérito da realização da retrospectiva de Yasujiro Ozu, o mais meticuloso e perfeccionista cineasta japonês, que deixou como legado uma vigorosa filmografia com mais de cinqüenta longas-metragens, revelando ao mundo o vigor da indústria cinematográfica do seu país. Dotado de requintadas técnicas de filmagens e representação, Ozu, em toda sua obra, investigou um único tema: as relações da família e o tempo. Abrir a retrospectiva de Ozu com o filme "Tokyo-Ga" (Alemanha, 1985) do cineasta Win Wenders, mais que revelar o objetivo didático e formulador de olhares do projeto "Imagens em Pauta", remete a importantes questões do pensamento cinematográfico contemporâneo no que diz respeito à autoria e ao gênero documentário. Para tanto, necessário se faz retroagirmos aos irrequietos anos 50, no seio do pensamento dos jovens teóricos e realizadores franceses da revista Cahiers du Cinema. André Bazin, François Truffaut, dente outros, fundamentaram a idéia de autoria da obra de arte cinematográfica - a Política de Autores, como ficou conhecida - em grande parte tendo por referência a produção da indústria de Hollywood e do cinema europeu. Os filmes de Alfred Hitchcock, Nicholas Ray, René Clair, dentre outros, constituíram a base para o desenvolvimento deste pensamento cinematográfico que repercute até o presente momento. A ausência de autores orientais nesta "política" talvez possa ser explicada pelo fato de que até aquele momento esta produção raramente chegava ao público e, principalmente, era desconhecida pela crítica. Somente em 1953, quando o filme "Rashomon" de Akira Kurosawa participou do Festival de Cannes em 53 é que a produção oriental começou a ser descoberta pelo ocidente. "Tokyo-Ga" é um impressionante documentário que promove uma inédita digressão cinematográfica sobre a cidade de Tókio, toda em travelling - movimento de câmera favorito de Wenders, em contraste com os planos fixos diletos de Ozu -, de forma intimista, narrado em primeira pessoa, tal como prenunciara Truffaut quanto ao futuro da narrativa dos filmes de gênero ficção. Wenders se serve deste princípio do cinema moderno, porém o insere no gênero documentário, promovendo uma alucinada investigação da cultura japonesa e o seu fascínio pelas imagens artificiais. O cineasta revela uma Tókio high-tech e o fascínio dos japoneses pelas imagens. "Tokyo-Ga" oferece ainda, de "japa", importantes reflexões sobre o verdadeiro significado da vida frente às imagens e suas representações artificiais. É importante não esquecer que no momento em que "Tokyo-Ga" foi realizado, o ocidente já decifrava e devorava obras de outros incríveis mestres do cinema oriental como Kenji Mizoguchi, Yoji Yamada e o próprio Kurosawa. Mas, definitivamente, Wenders inaugurou, neste filme, um caminho novo em direção a genuínos autores da cinematografia do sol nascente. *Luiz Carlos de Oliveira Borges é cineasta, pesquisador, técnico da UFMT e organizador/curador do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá