ILUSTRADO
Sexta-feira, 11 de Junho de 2010, 21h:27
A
A
JAM
O ponto de mutação para um 'affair'
Cantor e compositor brasileiro se apresentava em show com espírito de jazz, baseado na improvisação, quando entrou no pub Amy Winehouse, em carne, osso e emoção
Roger Marzochi
Agência Estado
Na noite do dia 3 de junho, o cantor e compositor Rodrigo Lampreia, 27 anos, estava no palco do "Jazz After Dark", em Londres, apresentando suas canções com uma banda que havia formado no dia anterior. Apenas Antonio Moreira, guitarrista da banda de Lampreia, era conhecido. Mas foi defender a pulsação do som naquela noite na bateria. O baixista era brasileiro, mas assim como a guitarrista da Letônia e o pianista, Lampreia os havia conhecido na noite anterior. O pianista conheceu no "Favela Chic"; a musicista, num ponto de ônibus. Mas a "jam", um show que carrega o espírito do jazz ao se basear em improvisação, virou notícia quando entrou no pub Amy Winehouse, em carne, osso e emoção. "No início, quando a vi entrando na casa, comecei a tremer", diz o músico, em entrevista por e-mail à Agência Estado. "Claro que fiquei nervoso! Era uma artista internacional, ganhadora de Grammy, super talentosa, famosa, uma cantora que sou fã desde a primeira vez que ouvi. Fiquei tenso, apreensivo e emocionado. Quando ela parou na minha frente e ficou me olhando nos olhos, não pensei duas vezes e a convidei pra cantar. Estávamos tocando uma música minha, 'Samba Sofisticado', um samba meio bossa, e ela entrou e começou a cantarolar 'Garota de Ipanema' em inglês. Isso foi genial. Ela conhecia a versão em inglês. Depois foi tudo muito improvisado, muito relaxado, descompromissado e fizemos uma jam session de fato", lembra o músico, que foi levado para a música pelo irmão músico Pedro Lampreia. Mas já se emocionava ao ouvir a avó Elisa Lampreia, pianista de música erudita. As imagens percorreram o mundo. No Youtube, o vídeo contava com 51.837 exibições até o meio dia de ontem (11). E a história chegou a ter até aquela conotação canibalística, sobre um possível "affair" entre ambos. Independentemente da vida privada desses dois artistas, a questão principal desse encontro é entender que, para os músicos, o "affair" é justamente aquele momento sagrado em que ocorre uma troca musical, um ponto de mutação que pode marcar a passagem do aspirante à músico a músico de fato, ou que pode fazer um músico famoso se emocionar com novos talentos. Isso, aliás, pode ocorrer entre professores e alunos de música, entre músicos de uma mesma banda ou de diversas outras formas. Uns chamam isso de empatia ou energia. Ou, como disse no fim do mês passado Santana em um show nos Estados Unidos: "música é luz e amor". Para Lampreia, que vive só de música há apenas dois anos, essa foi uma surpresa que o ajudou a se tornar conhecido no Brasil. Mas musicalmente, simbolizou uma passagem importante para a maioridade musical. "Acho que poder dividir o palco com ela foi fundamental pra mim enquanto artista, cantor e até músico. Uma experiência rica e um momento inesquecível! É sempre bom poder compartilhar arte com gente talentosa e verdadeira. Chega um momento que a música fala mais alto, transcende. E quando isso acontece, nada é maior do que o encontro, que proporciona a troca de musicalidade. E isso é o máximo que a arte pode alcançar depois de fazer seu papel: emocionar", conta o músico, que deve lançar seu primeiro disco em 2011. Exemplos como esse, graças à música e à músicos de "coração aberto", nas palavras do percussionista Ari Colares, que ficou amigo do trompetista Wynton Marsalis numa jam em 1998, podem ser extremamente ricos. No ano passado, o saxofonista Josué dos Santos, 25 anos, e o trompetista Sidmar Vieira, 24 anos, estavam no palco do Auditório Ibirapuera em um show em comemoração à obra de Johnny Alf, tocando com o contrabaixista Sizão Machado e o pianista Guilherme Vergueiro. Temas perfeitos, solos emocionantes de uma "safra" nova de músicos. De repente, entra no palco o trombonista Raul de Souza, quebrando tudo. À medida que o solo do Raul evoluía, era possível ver o sorriso dos meninos, ao ponto de se entreolharem em um momento com aquele pensamento: "estamos tocando com O Cara!". "O Raul tem importância grande na história da música instrumental brasileira, desde o samba-jazz. E, de repente, estou junto com ele no palco. Eu penso: sempre ouvi o cara, e ele está aqui! Tem muita gente boa. Mas conseguir fazer o coração disparar, ele faz isso sempre. É como se sempre o estivesse ouvindo pela primeira vez", conta Josué, que naquela noite havia tocado com o mestre pela primeira vez. Outro que mudou sua forma de sentir a música foi o saxofonista Nailor Proveta, da Banda Mantiqueira. "É preciso estar com o ouvido aberto com ele. Porque qualquer coisa que ele faz é um aprendizado. Não é preciso perguntar nada. Música é acumular horas de voo. Tem coisa que você aprende tocando." Para Sidmar, era sua segunda experiência ao lado de Raul, com quem tocou pela primeira vez na Sinfônica de Diadema. "E nossa, foi uma experiência incrível, como músico e como pessoa. Ele é incrível." E, um grande ensinamento de um ídolo, veio em 2006, numa aula também com Wynton Marsalis, que lhe deu um conselho importantíssimo. "Ele me deu uma dica: 'toda vez que estiver solando, improvisando, você cita um pedaço do tema da música que estava tocando'. Nunca mais esqueci isso." Talvez isso também represente o que o professor José Wisnik, em um memorável Café Filosófico, explicou sobre o que é música: um acordo sobre a intimidade da matéria, "sobre algo que não estamos vendo nem pegando, que é um objetivo físico, mas invisível e intangível sobre o qual estabelecemos esse acordo, um princípio frequencial " O ponto de mutação para o "affair" da arte.