NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 01 de Setembro de 2012, 11h:37

CRÔNICA

Noturno

Luís Gonçalves*
Especial para o Diário de Cuiabá
A boca da noite é gulosa. Atrevida! Chega de mansinho e abafa. Engole à tarde manhosa. Manhosa nada a tarde não está com nada. É uma tarde chata! Chata e espremida na turva fumaça urbana. Uma tarde que escorre em solavanco. Tarde esquisita que faz o transeunte virar tição humano. O mundo anda pirado ultimamente. Esbarrou nesse astral suspeito e esqueceu-se de seguir adiante. Também, todos querem dominar o mundo. Um puxa o outro estica e vira essa bagunça. Deveria haver o relógio do humor. Seria interessante medir o tempo em sorrisos. É o mundo das indefinições. Tudo é possível. Acabaram as palpitações da vovó e ficaram as curiosidades dos netinhos. Se há alguém que não está nem um pouco preocupado com isso esse alguém sou eu. Quero viver meu lance de vida bem tranquilo. Sem estresse. Vou entrar numa de só ver a vida passar pelo buraco da fechadura. Pior que só viver na escuta dá uma canseira danada. Mas, há tempo para curtir todas as sobras. Ih! A danada da noite detonou à tarde. Tomara que venha em paz. A noite também é uma gaiola de doido. A noite de cidade grande é pior ainda. Só dá pra cabeça. Essa noite promete. Vai dar para suar legal. Maior vapor! Calor de dia até que vai. Mas, a noite é uma judiação. Não dá para ter paz. Calor a noite é cruel. O corpo vira uma chaminé. Bolas de água salgada minam pra todo lado. Não é fácil! O sol retirou o time de campo rapidão. Escorraçado pela noite. Fugiu do calor noturno. O sol só aceita calor do sol. Calor da noite é outro papo. Antigamente a noite era um segredo a ser desvendado. Ultimamente, a noite é toda bagunçada. Maior folia. Acabou o lance da poesia e para falar da noite é melhor pedir licença. Porque a noite agora é uma piada. Uma piada que goteja o manto sedutor delicadamente sobre a cidade. Está tudo escuro. Todo mundo envolvido no jogo da timidez e da vergonha oferecido pela noite. Fazer poesia de uma piada não seria nada legal. Noite tropical! Vai morrer abraçada ao Cerrado. Vai fundir e confundir a planície toda. O Cerrado é o noivo vestindo o enxoval negro da noite escura. Qual é a cor da noite? A noite tem a cor do burro que foge. O Cerrado veste preto somente após as queimadas de verão. É um hábito. Todo ano queima de doer. A cor da noite não se aplica as cinzas. Apenas um aparte ao mundo. É uma parte do mundo das fatias. Dos cortes e recortes. Inflexões. Pronto! Está prontinha a poesia da noite. Boa não ficou. Mas pelo menos escrevi noite várias vezes. Aquele detalhe do Cerrado ali no meio deu um toque super ambientalista. A noite combina com essas nuances romancistas ligadas ao conceito cidadão. Sinceramente, não sei de onde saiu esse tal conceito cidadão. Nunca li nada parecido. Às vezes as explicações mais confundem que esclarecem. Mas a criação é livre e pode ser vitaminada a qualquer momento. Nenhum autor consegue explicar a própria arte. Não sou autor, mas acabo de criar uma poesia. Portanto me sinto impossibilitado de explicá-la. Deixo isso aos críticos. Tomara que a bendita poesia encontre um crítico bem generoso. Senão a coisa pode se complicar. Também, não acredito que um crítico vai querer detonar a minha poesia apenas porque não consigo explicá-la. O que não é difícil. Esse pessoal não economiza na borduna. E gostam da safadeza. Para evitar uma demanda sem causa vou deletar a poesia. Mas isso também já é um desaforo: deletar uma poesia apenas por que os críticos não a aceitam? Não está certo. Farei uma poesia reinventada. Nas entrelinhas dou algumas pistas para as explicações. Pronto! Vai dar certinho. Eles terão as explicações e eu a poesia. À noite e todas as partes possíveis são básicas. O chique é ser básico. Pelo menos confunde. Todos os básicos se confundem. As partes básicas necessárias são divididas para cada par. E as outras são enfeites. Não ficou legal esse enfeite? Parece apelativo. Poderia ser adorno. Porém, tudo em uma noite é apelativo. A noite é uma daquelas unidades repletas de superlativos que nada explicam. Veja bem, estou tentando entrar à horas no assunto e não estou conseguindo. A noite é um pesadelo. (Texto extraído do livro Power In) *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado ([email protected] )

Edição EDIÇÃO 16965




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL