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Cuiabá MT, Sábado, 13 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 08 de Maio de 2010, 14h:30

CRÔNICA

Não há nada igual!

Valéria del Cueto
Especial para o Diário de Cuiabá
Jorge, na verdade, continuou reinado feriadão adentro, abençoando o Viradão Cultural carioca, espalhado pelo Rio de Janeiro em mais de 500 eventos distribuídos em três curtíssimos dias. Vi pouco, mas fui feliz. A festança começou sexta feira, na Praça XV, centro da cidade. Um show de Dona Ivone Lara, dama do samba e compositora talentosíssima de clássicos como “Acreditar”, imortalizado na voz de Roberto Ribeiro, abriu os trabalhos. Dela mesmo, a primeira mulher a assinar, com Silas de Oliveira e Bacalhau, um samba enredo no carnaval mais famoso do planeta. Foi em 1965, pelo Império Serrano, com o enredo “Os Cinco Bailes da História do Rio”. Não ganharam, (o vencedor do carnaval naquele ano foi o Salgueiro) mas foram vice-campeões. Como sempre Dona Ivone distribuiu alegria e esbanjou vitalidade. Apesar de prejudicada por uma fratura, no final da apresentação se levantou da cadeira onde cantava ajudada pelos músicos, por que queria dar uns passinhos. “Onde já se viu fazer show sem sambar?” perguntava. Assim não há platéia que resista a “Sonho Meu” - parceria com Délcio Carvalho - e outros clássicos do gênero. Nos outros dias do Viradão, o Leme me bastou. Sábado, vi Jorge Mautner com sua rabeca enfeitiçante e caí no samba novamente. Desta vez, ao som do grupo Casuarina. O palco montado pela prefeitura era tão perto de casa, logo ali, na praça Júlio de Noronha, projetada por Burle Marx, com a Pedra do Leme ao fundo, que podia dar uma descansada enquanto faziam a troca de palco. Uma delícia auditiva, visual e olfativa, com aquele cheiro de maresia, trazido pela brisa do mar. Domingo, então, foi over dose sem ressaca! Duas orquestras mostraram como o Rio não deixa morrer um tipo de música que faz parte do imaginário carioca. A tradição de orquestras como a Tabajara e a de Severino Araújo se renovou e repaginou, com arranjos modernos e performances muito interessantes. Tudo ali, na vizinhança. No por do sol, a Orquestra Lunar, só de mulheres, e Áurea Martins, uma das vozes mais bonitas da noite carioca, recitando Jorge da Capadócia, do xará Benjor. Na hora apropriada para aquela água de coco de final de tarde. Depois vieram Ney Lopes e seu samba elegantíssimo, na companhia das minhas sobrinhas Nat e Luluca, meu irmão, Mickey e a Kika, papai e mamãe. Virou encontro familiar, planejado para terminar antes das 10. Mas qual o que! No final da festa, lá estava mais uma, a Orquestra Voadora, engraçada e cheia de vitalidade, com um público bem jovem, que saiba as músicas de cor. Saindo do palco, invandindo a praça, arrastando com os músicos uma multidão feliz, como eu e a família completa, já que não teve jeito de dispensar as menininhas, nem pelo colégio no dia seguinte, antes do final da apresentação. Dançando a luz do luar quase cheio desenhado no entorno dos prédios que formam o colar de pérolas da princesinha do Mar, pensava com meus botões: “Isso vale mais do que um pouco de sono na hora da aula, amanhã de manhã”. Torcendo para que o argumento tenha aliviado a barra da minha mãe, responsável pelas duas menininhas felizes que pulavam a minha frente... O repertório não poderia ser mais adequado para a celebração coletiva que encerrou o nosso Viradão. Jovens, velhos e crianças entoavam, misturados e acompanhados pelos instrumentos de sopro que bordavam a melodia e a base de percussão da orquestra, “Do Leme ao Pontal”, do síndico, Tim Maia. Nada mais apropriado para coroar o feriado e a viradona de música e poesia, entre a montanha e o mar. Concorda comigo, leitor? *Valéria del Cueto é jornalista, cineasta, gestora de carnaval e colabora com o DC Ilustrado. Outros textos da jornalista no http://delcueto.multiply.com

Edição EDIÇÃO 16962




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