ILUSTRADO
Sábado, 21 de Dezembro de 2013, 13h:31
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HOMENAGEM
Morre o rei do brega
Apesar de ser de um outro tempo, ainda fazia média de 25 show por mês em todo o Brasil. Profícuo, compôs mais de 300 músicas
Rodivaldo Ribeiro
Da Redação
O mundo amanheceu um pouco mais sem graça ontem. E bem menos safado, boêmio e sincero. Tudo culpa do cantor Reginaldo Rossi, que resolveu ir desbravar o ocaso do tempo após quase um mês em batalha intensa contra tubos, médicos, quimioterapia, câncer. Foi descobrir a resposta da grande pergunta no Recife, sua cidade natal, aos 69 anos. Perdemos o rei do brega. Apesar de ter ficado famoso com Garçom, aquela canção em que chora a perda de uma mulher nos ombros do pobre atendente, chegando ao cúmulo de pedir-lhe que, constatando a embriaguez, apenas deitasse-o ao chão, Rossi já havia garantido seu lugar na história da música popular brasileira muito tempo antes. Desde O Quente (1968), seu terceiro disco, onde emulava descaradamente o timbre, o penteado e até a inflexão de voz de outro rei, Roberto Carlos. Corajoso, acostumado a celebrar a vida com a força que só artistas e loucos têm, declarou, poucos dias antes de acordar para o tempo e vê-lo parar: Estou pronto para a batalha e tenho certeza que vencerei", segundo boletim médico divulgado na imprensa nacional no último dia 11 de dezembro. Mas tristeza não combinava com o estilo do homem, por isso, melhor lembrar alguns episódios mais a ver com sua biografia admirável. Fruto de um outro tempo, quando sinceridade era pré-requisito para o que quer se fosse fazer, Rossi dava valor inestimável à persona criada por si. No palco, mantinha uma postura de lorde inglês misturada com comediante nordestino. Exagerado, empertigava roupas, todas de grifes antigas, que raramente combinavam entre si. Uma verdadeira festa de cores, espécie de fotograma vivo dos anos 1960/1970. A camisa aberta no meio do peito, há bom tempo grisalho, não deixava a impressão escapar. Crooner clássico, comandava sua miniorquestra com trejeitos ora enfáticos, ora suaves, dependendo do gosto da audiência que o escutava. Vamos tocar coisas mais rápidas, o povo tá dormindo, maestro, vi-o proferir em um show memorável no meio deste ano em Várzea Grande. Detalhe: ele parou a música no meio, fingindo irritação, só para logo em seguida engatar uma de suas impagáveis histórias de amor perdido, chifradas, bebedeiras, alegrias e percalços de vida noturna/amorosa/sexual intensa. Vivida ou imaginada. Quando nada disso era suficiente, tinha a manha de comparar-se a Mozart, bravatear que falava francês, inglês, espanhol e alemão com pequenas frases de guia de viagem em um sotaque indescritível para provar , e contar causos como o do conhecido chifrado por ele ainda na lua de mel. Eu avisei para ele que ela não prestava, mas ele estava cego de amor e por isso o perdoei. Já a mulher, fiz de tudo, mas ela me atacou em um vacilo dele, na bebedeira da festa, no banheiro, não pude fazer o mesmo, dizia. No entanto, era erudito no que fazia, sabia que não era de bom tom ferir o machismo latino-americano toda hora, então, utilizava variações estudadas nas histórias. Dependendo da região onde estava (o vi também certa vez em São Paulo), ora era o chifrudo, ora era o chifrado. Só uma coisa não mudava: o culpado era sempre o homem, pois a mulher, grifava, era sagrada e insubstituível, numa virilidade derramada de encher a gente de orgulho. E emocionar. Era o que ele mais sabia fazer. Lá vai o trem da eternidade/ Levando junto o meu amor, deixando aqui tanta saudade/ Deixando aqui um sofredor.