Com a alma lavada sai. Os olhos futricavam em curiosidade cada música dos pássaros. Manhã calorenta de fim de agosto. Consumia o mês nervoso e apático. A rua coberta pelas folhas secas que brincavam no sussurro do vento. O chapéu do morro estava esbranquiçado pela poeira do fogo. Segui lentamente para a liberdade assistida. Olhei os pés esculhambados pelos passos. Observei que mesmo retalhado pelos caminhos da vida aqueles pés galgavam o futuro sem ressentimentos. Não havia dor nos movimentos apenas ações contínuas de quem conhece a dura luta diária de um caminhante. À margem direita um grupo de curvaras exibiam uma maquilagem carregada e gótica com pesados tons de negros que prendiam o look em anexos nus. Abatidos, alguns gravetos fumavam seus tições. O fundo da lagoa estava ressequido e partido em fendas rochosas de barro negro sapecado. As folhas secas solteiras entoavam uma fúnebre valsa enquanto camuflavam as fuligens. Nesse momento o sol dengoso abre a janela e fica estarrecido com o visual e por alguns minutos permanece vermelho de vergonha. Esse stress me deixa agoniado e percebo as primeiras gotas de suor umedecerem a camisa. Percebi o quanto é silencioso o grito interior. Que os sentimentos contorcem o peito até enxugar a água dos olhos. O vazio é tão caro quanto a viagem de um bonde sem passageiro. Percebi que necessitava mesmo de um veneno precioso. Talvez, um pouco de paixão. O coração super-animado permanecia lotado de pretensões significativas. Cada impulso emotivo causava comichão geral. Como uma explicação fraudulenta. Fazia arder o espírito numa alegria sem tamanho. Lembrei dos sonhos pecaminosos burilados em algumas madrugadas desgarradas da fiel companhia da solidão. Percebi o momento de sentir a carícia de um grande amor. Embarcar nesses cargueiros que mergulham em mares de tormentas simplesmente á caça de um porto seguro. Senti o mais fiel dos estivadores embarcado em canções. Aportei a vida em um suspiro e alimentei o desejo de cafungar o tubo do seu olhar. Despojei a vida em pensamentos e vi o desejo bambear a perna sem limite. Um suspiro cauteloso cutucou um gemido frágil. Um arrepio despudorado trouxe a doce lembrança do hálito da paixão. Um casal de pombos exibia a dança da vida á dois numa frenética revoada sem vergonha pelo canto da estrada. Apressei para chegar num ponto bem alto do monte. Onde pudesse avistar além do desejo de deitar os olhos em alguém tão especial capaz de dizer: Sim!, preciso de sua poesia!. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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