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Cuiabá MT, Sábado, 20 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 20 de Julho de 2013, 13h:35

A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA

LUIZ GAMA DE OLIVEIRA - DO INÍCIO AO FIM UMA HISTÓRIA BONITA

EVALDO DE BARROS
Especial para o Diário de Cuiabá
O Dr. Luiz Gama de Oliveira faz parte da turma de engenheiros agrônomos famosos que revolucionou a agropecuária de Mato Grosso. Estudioso como ele só, respeitabilíssimo pela conduta irretocável, o Dr. Gama, como é conhecido, esteve junto com Bento Machado Lobo, Maçao Tadano, Francisco Borja Santos, Ainabil Machado Lobo, João Bosco Nazareno, Hélio Palma de Arruda, Bento Porto, Guido Silva, Antonino Costa, Gabriel Miranda dos Anjos e, uns mais, outros menos, contribuíram diretamente para transformar o serrado mato-grossense em terra produtiva e com possibilidade de alavancar a cultura de grãos que, a final, terminou dominando o rico nortão mato-grossense. Passando dos 80 anos, com os filhos criados, estudando atualmente com responsabilidade a doutrina espírita, o Dr. Luiz Gama de Oliveira é arredio a entrevistas e não aprecia falar do seu trabalho em prol de Mato Grosso. Para fazê-lo dar uma entrevista tivemos que recorrer à nossa velha amizade e à necessidade que temos, como cuiabanos de antigamente, de dar o nosso depoimento e prestar contas às gerações futuras do que fizemos ou deixamos de fazer. Assim pressionado, ele falou, e passou a integrar o nosso grupo de entrevistados. DC ILUSTRADO - Conte-nos o seu início de vida. DR. GAMA - Nasci em Cuiabá no dia 03 de maio de 1932 e fiz o curso primário na Escola Reunida José Magno destruída pela irresponsabilidade da Seduc. Depois fiz o antigo secundário na Escola Agrícola de São Vicente e o segundo grau na Escola Agrotécnica de Barbacena, Minas Gerais. Finalmente cursei a Escola Nacional de Agronomia, da Universidade Rural do Rio de Janeiro, onde me formei em 1958. Fiz vários cursos de especialização que muito contribuíram para o exercício profissional. Na minha infância, aos 04 anos, a minha mãe D. Joana, num ato de renúncia extrema e amor maternal, vendo que não poderia me educar por ser doméstica, confiou a minha criação e educação ao querido casal Oder e D. Espéria de Lima a quem tudo devo. DC ILUSTRADO - E os cargos exercidos? DR. GAMA - Fui Diretor de Terras, Obras e Serviços da Prefeitura Municipal de Cuiabá, Professor de Química do Colégio Estadual Barnabé de Mesquita e de Morfologia e Sistemática Vegetal do Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá, Fiscal Federal Agropecuário, Executor do Subprojeto Produção Agrícola - curso para tratorista, presidente da Companhia Agrícola do Estado de Mato Grosso - Codeagri - Conselheiro do CREA dentre outros cargos. DC ILUSTRADO - Mato Grosso é responsável por grande parte das exportações brasileiras, mas a União nos trata com indiferença. Por que tudo é difícil para nós? DR. GAMA - Cuiabá é uma cidade com uma série de deficiências porque os cuiabanos que se projetaram no cenário nacional não residiam aqui, não sentiam as necessidades e os problemas da nossa sociedade. O Senador Azeredo, por exemplo, fez de tudo para que a ferrovia não viesse para cá porque “traria marginais”. Já o Senador Filinto Müller ajudava a juventude mato-grossense que se deslocava para estudar no Rio de Janeiro. Uma vez formados, os que retornavam ao estado tornavam-se ótimos cabos eleitorais do Senador. Acho que os políticos e empresários de hoje continuam com a mesma mentalidade, cuidam apenas dos seus interesses e de suas empresas. DC ILUSTRADO - Na sua opinião quais os fatores determinantes do progresso do Agronegócio? DR. GAMA - Getúlio Vargas fundou o Centro Nacional de Ensino e Pesquisas Agronômicas, o 1° Instituto de Ecologia do mundo, a Universidade Rural, e Escolas Agrícolas em todo pais, visando a obtenção de profissionais de todos os níveis para o setor. No Governo JK surgiu a Campanha da Mecanização, importando tratores e trazendo fábricas para o Brasil. Outros programas vieram complementando os anteriores, como o Polocentro e a pesquisa através da Embrapa. No início da década de 1970 foi aberta a estrada Cuiabá/Santarém, trazendo com ela agricultores de outros estados, na maioria do Sul, com tecnologia mais avançada, que se fixaram na região norte com topografia plana ideal para exploração agrícola e com os três fatores básicos para a agricultura: luz solar, clima e solo. DC ILUSTRADO - As novas técnicas de manuseio contribuíram para melhorar o nosso solo até que ponto? DR. GAMA - Como o solo do cerrado é de baixa fertilidade o Ministério da Agricultura montou um moinho no município de Nobres, a fim de incentivar o empresariado a investir na atividade. Na questão de corretivos devo lembrar a participação do estado do Paraná no fornecimento desses insumos. Muitas empresas surgiram em Mato Grosso, tornando o estado autossuficiente, barateando o custo do produto com boa qualidade. A atividade agrícola é biológica, portanto o sucesso depende muito do acompanhamento diuturno, o máximo de cuidados, procurando sempre novas técnicas para manter a produtividade. Devemos aos sulistas, principalmente aos paranaenses, o nosso sucesso agrícola. DC ILUSTRADO - A copa do mundo foi um bem ou mal para Cuiabá? DR. GAMA - Acho que foi um bem! É a segunda vez que Cuiabá tem a oportunidade de melhorar seu aspecto urbano. De 1945 a 1950 tivemos na Presidência da República o General Eurico Gaspar Dutra, cuiabano, que procurou atender todas as solicitações das autoridades locais. Liberou recursos para a construção de um estádio de futebol semelhante ao Pacaembu em São Paulo, na época o melhor do Brasil, e veja o Dutrinha. Dispensa comentários. O presidente Dutra, também, liberou recursos para construção de casas populares e o dinheiro enviado era suficiente para construir o dobro de casas erguidas. O dinheiro que veio para a dragagem do rio Cuiabá sumiu sem que fosse tirado do seu leito um único grão de areia. Desta vez, com a Copa, Cuiabá está tendo a oportunidade de resolver seus problemas urbanos que talvez levariam 50 anos, e ainda, com a possibilidade de fiscalizarmos a aplicação dos recursos, diminuindo a ação dos corruptos que, segundo a mídia, está muito presente na administração pública. DC ILUSTRADO - Qual cidade é a melhor para se viver: a Cuiabá de hoje ou de antigamente? DR. GAMA - Cuiabá era uma cidade sem a poluição sonora de hoje; todos podíamos estudar em voz alta, ninguém roubava o pão deixado pelos padeiros e a juventude da época dispunha de várias opções de lazer, principalmente de pescaria e banhos nos rios, Coxipó, Cuiabá e o Ribeirão do Lipa. Hoje não temos segurança nem mesmo em casa, e vivemos presos enquanto os malfeitores, livres, agem à vontade. Poucas pessoas podem dizer que nunca foram roubadas na nossa terra. DC ILUSTRADO - Quais são as grandes alegrias e tristezas de sua vida? Alguma mágoa? DR. GAMA - Três grandes alegrias tive em minha vida! A primeira na minha formatura, ao receber o meu diploma, senti estar capacitado para lutar pela vida. A segunda alegria foi o meu casamento, simples, mas alicerçado no amor, com perspectiva de longa vida, confirmada hoje em mais de cinquenta anos de vida em comum. A terceira alegria ao aprender que alegria e tristeza são manifestações diferentes, oriundas de nossos procedimentos, mas com a mesma finalidade, o aprendizado que nos conduz ao progresso pessoal e a evolução espiritual. Por isso todas as dificuldades no caminho devo agradecer e não magoar-me por que foram para mim as oportunidades de crescimento que Deus me deu. DC ILUSTRADO - Na sua opinião qual foi o melhor Governador de Mato Grosso? E prefeito de Cuiabá? DR. GAMA - Acho que foi o governador Fragelli, pelas construções do Centro Político e pelas escolas e o prefeito Rodrigues Palma que revolucionou a nossa cidade com obras em todos os bairros que, infelizmente, estão abandonadas, como os centros esportivos. DC ILUSTRADO - A política partidária nunca mexeu com os seus interesses? DR. GAMA - Felizmente meu santo é forte e as vezes que quiseram cooptar-me não deu certo. Eu me formei na Universidade Rural no dia 22 de dezembro de 1958 e em março de 1959 já trabalhava no Ministério da Agricultura. Até o ano 1962 tudo corria tranquilo. No ano de 1963, começamos a sentir a influência partidária na Repartição, o que me levou a forçar a aposentadoria. Aliás, justamente num momento em que tinha tudo para continuar trabalhando por Mato Grosso recebi um telefonema: “Gama aqui é do Ministério da Agricultura, quero lhe avisar que o seu nome será publicado amanhã no Diário Oficial da União em disponibilidade.” Eu quase gaguejando disse, mas meu nome não estava na lista, o interlocutor REPETIU, estou avisando:” o seu nome será publicado amanhã no Diário Oficial”. Fiquei tão abalado que não agradeci nem perguntei o nome da pessoa. Levantei fui ao Serviço de Recursos Humanos e assinei meu requerimento de aposentadoria. Uma funcionária ciente do que se passava, olhou para mim e disse: “viu o que o senhor ganhou em ser Caxias?”. Retornei a minha sala, pedi a minha secretária que explicasse aos meus colegas o ocorrido, pedisse desculpa e despedisse por mim, pois, eu estava sem condições emocionais para fazê-lo. Assim me despedi do Ministério, após 32 anos de serviço sem faltar um dia sequer. CONCLUSÃO Para quem não conhece o Dr. Luiz Gama de Oliveira ele é um vencedor. Nascido em Cuiabá no dia 03 de maio de 1932, aos quatro anos de vida sua mãe, D. Joana, que trabalhava como doméstica, entregou-o ao casal Oder Rodrigues de Almeida Lima e D. Espéria de Lima. Foi criado na Rua João Bento, que era pai de seu padrinho Oder. Para quem não conhece a história cuiabana, João Bento era barbeiro, fundador da Igreja Presbiteriana, jornalista e vereador. Todos os protestos que se realizavam em Cuiabá contra quem quer que fosse tinha à frente a figura de João Bento. Como educava os filhos com rigor excessivo para os padrões atuais, aconteceu que de certa feita um de seus meninos, temeroso de apanhar do pai, refugiou-se na casa de um vizinho. João Bento mandou várias pessoas à casa do vizinho para buscar a criança. Como não foi atendido decidiu, ele próprio, ir atrás do filho. Com medo da reação de João Bento o vizinho que escondeu a criança refugiou-se atrás da porta e, à passagem do pai do menor, esfaqueou-o. No leito de morte por quatro dias, no hospital, João Bento isentou de culpa o seu ofensor porque ele estava certo ao defender a criança. Foi uma atitude de grandeza do avô de Luiz Gama de Oliveira.

Edição EDIÇÃO 16966




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