O dia amanheceu relampeando frio. Até as araras que vem sempre quebrar semente de caju, não vieram. Passarinho quando muda voo pode contar. Alguma coisa há. Esses bichos entendem mais de tempo do que a gente. Conforme o tempo eles não facilitam. Já faz dias que a cacunda da serra vem soprando um vento fresco do tamanho da tristeza. Vento de serra é perigoso. Vem encanado trazendo maledicência. Ainda mais essa serra que apara tudo quanto há. Quando desanda a descascar é só padecimento. De dor o mundo anda cheio. Esse tempo fresco é danado para constipar a bacia do peito. Deixa o sangue preso e dá encolhe perna. Tem deles que depois que dobra não levanta mais. O frio cola tudo quanto é nervo do corpo. Pra quem não está acostumado o padecimento é grande. Até o capim ajunta a asa e esmorece. O gado não come fica tudo rodeado parecendo parafuso. Esse tempo só presta pra sem-vergonhice. Atrai a agonia vindo de baixo pra cima. Mistura certinho com aquela aflição besta. Tempo brusco mexe com o juízo de qualquer um. É um tempo em que tudo para somente para pensar no mais logo. Até as criações ficam rebuçadas umas nas outras esquentando o couro. Nem o sol espia esse tempo. Já é tarde. O dia amanheceu faz é hora e nem sinal do maldiçoado. O frio quando vem forte faz as árvores piarem frouxo. Igual quando arrasta couro de boi. É barulho triste. Quando o mato apronta barulho triste vem frio forte. Esse frio gado não aguenta. Gado é mole pra frio. Pior do que criança. Mas tem criança que é duro pra frio. Tem deles que enquanto o mundo está encorujado curtindo a ferrugem ele tá pulando. Não tem parada. Antigamente frio não andava por aqui. Esse frio tostar pele não. Nunca se deu com o lugar. Vez em quando soprava aquele ventinho brusco puxa coberta. Mas era rápido. Logo o sol aprumava ele para outro canto. Dizem que frio brabo tem lá daquele lado. Se não tiver couro grosso ir pra lá é besteira. Povo de lá tem que viver com mordaça para não bater queixo. Tem dele que já está acostumado. Toma vento na cara e nem treme. Mas também não suportam sol. Quando vem pra cá. Desandam a pedir ar pro tempo e se não der vão embora. Não suportam meia hora desse sol cozinha miolo. Pra aguentar esse sol na moleira tem que ter chapéu bom. Pra nós que estamos acostumados chega o momento de tomar água. Mas eu prefiro o sol que o frio. Melhor ver a pele chorar do que ver ela morta. Espia ai como que fica. Duro igual couro de jacaré sondando o sol. Verdade seja dita, frio não é pra qualquer um. Quando é um friozinho daquele. Só pra fofar o cabelo do braço, até que vai. Mas esse frio emborca defunto, não tem quem aguente. Se botar o focinho do lado de fora não vai meia hora para a beirada do beiço desandar a soltar as penugens. Pra onde se olha é só mato soltando fumaça igual chaleira quente. Se não fizer assim o vento vem e derruba tudo. Experimente colocar o focinho do lado de fora. O couro não aguenta. Derruba tudo. Fica no vivo. Aquilo dói. Pior é quando o beiço zanga e demora dias pra sarar. Tem beiço que é pervertido. Adora uma moléstia. Definitivamente esse tempo não me agrada. Depois que vai embora a gente fica dias aí briquitando com o peito chiando. Alguns nem aguenta e vai pra cama com a bronquite. Pois, sim. Conversa tá boa, mas vamos dar jeito no corpo que a morte é certa. Até logo! *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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