Nessa época Gervane de Paula mantinha ateliê vizinho da Oficina 300. Um período extremamente delicado. Os próprios produtores culturais brigavam entre si. Havia muito ranço sendo destilado de canto a outro. Os jovens militantes culturais chegavam com outras ideias e dispostos a tomarem acento. Embora houvesse muitas cadeiras vazias era complicado fazer entender que o novo sempre acontece. Gervane curtia um momento que denominei como a era G grafite. Conseguia boas leituras das brincadeiras de menino. Vivia um momento super fértil e nossas conversas eram bastante contaminadas. Talvez Gervane tenha sido um dos artistas que mais influenciaram em minha produção. Leitor inveterado e extremamente crítico possuidor de uma incrível súcia de cutucar a onça com palito de fósforo. Nessa época consumimos muito a literatura do Thomas Bernhard. E foi exatamente num desses compêndios, mais precisamente o Árvores Abatidas que predispus a relatar as penúrias que vivíamos entre os acertos e desacertos da política cultural. Desde então me transformei num elemento suspeito. Algumas pessoas ligadas afastaram porque segundo elas fiquei muito crítico. Percebi que as verdades são boas apenas quando fazem bem para a pele. Acabei gostando da brincadeira e fiquei cada vez mais estranho. Aos poucos fui me distanciando e dedicando cada vez mais a literatura. Esse reflexo pode ser verificado através da agressividade dos textos A Lombra de Jó e os que o precederam. Gervane também me apresentou ao centro antigo da velha Cuiabá. Ele estava realizando uma interferência nos elementos do Patrimônio Histórico e isso me levou a uma intensa sondagem dessa magnífica linguagem. Ao fim estava totalmente seduzido e nunca mais me separei dessa questão. O que, posteriormente, acabou me levando ao turismo. Naquela época havia muitas casas sem chapéus, com paredes que gritavam em agonia lenta ao relento. Era fácil encontrar gotas de lágrimas escorrendo pelas calçadas, vindo dos adobes e taipas em profunda lamentação. Alguns jardins de invernos sediavam colônias de mudas daninhas e vasta sujeira. Para encontrar os pisos e as cerâmicas que registravam a história da moradia era preciso garimpar entres os insetos e as sujeiras da moderna vadiagem. Em alguns casos ainda era possível deparar com belas madeiras chanfradas, a golpe de machado, com peculiar destreza lutando contra os cupins que as atacavam de forma extremamente cruel. Ensaiei na época tecer uma breve leitura do poderio econômico da Cuiabá daqueles anos. As pistas eram super evidentes. Em todos os imóveis, era possível vislumbrar materiais e trabalhos estimulantes. Havia quase uma uniformidade. A diferença ficava por conta dos acabamentos e a quantidade utilizada. Nos grandes imóveis os acabamentos se revelavam uma obra de arte. Havia esmeros no trato das abóbodas e cantoneiras. As linhas retas sempre circundando uma série de acabamentos floridos e rítmicos. Nas casas menores havia pouco desperdício de espaços e maior intimidade, com visível economia de material. O acabamento rústico sendo camuflado pela pouca luminosidade. Dispensando totalmente o uso das janelas. Marcante detalhe que reflete total exuberância nos casarios mais imponentes. Brilhante trabalho que esparrama pelos umbrais e alguns alcança belas sacadas. Trazendo a lume uma reflexão pertinente: o material pode ser o mesmo a diferença está no artista, na concepção criativa e principalmente na construção ideológica que o momento oferece. (Texto extraído do livro: Onças Luís Gonçalves) *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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