Um grito rasga a noite que resmunga em eco ferido. Soluços tropeçam em todas as palavras soltas na soleira do divã. Um pedaço do destino libertino escorre a cada segundo em total disputa em ação. No trapézio tamanha agonia acelera contra o tempo. Uma explosão de ternura refresca a alma e pinta a cena de um silêncio cor do crepúsculo. Manchado pela respiração cravejada de ritmo do frevo. Parece que a noite ficou mais noite do que nunca. Furando a fresta da janela uma lança xereta da lua futrica o aposento. Que aos poucos se entrega ao vento gelado do refrigerador de ar. Sabores de corpos se misturam no cheiro atrevido do perfume sexy. Um display vermelho engata a realidade dando à hora certa. Duas vidas estendem ali as próprias conclusões. Foram tragados pelo instinto e se deparam no ponto de partida de uma série de curvas e retas que não estavam no mapa. Isso já não interessa mais. Lá fora uma brisa abana a vaidade das árvores frutíferas do quintal e um canto melancólico de ave noturna faz o contralto da farra da noite. O pintor celeste pinta uma estrela a cada instante. Procurando chamar a atenção para o Universo esculpido em suspense. O clarão do luar flagra silhuetas dançarinas que perambulam pelo quintal. Uma noite de beijos ardentes que se lasciva no perfume da mulher. Formando recortes memoráveis que impregnam o tecido da cortina que alvoroça a cada instante. Uma campainha moderna acaba com o charme. Ela olha para o lado e vislumbra um passado de intensa agitação estático e completamente relaxado. Apanha a cabeleira e constrói um ninho no alto da cabeça. Respira fundo. Envolta no lençol sai colhendo as peças de roupas que foram extraviadas na longa caminhada ardente. Acompanhada pelo celular se tranca no banheiro. Minutos depois escuto o chuveiro lhe dar uma bronca pela rebeldia. Depois os pingos de lamentações em vê-la se produzindo diante do espelho. A porta se abre e uma mulher linda e maravilhosa se aproxima e me olha como se despedisse do próprio momento de entrega. Percorre o meu corpo com uma suavidade feminina que me despacha direto para a solidão. Com um beijo carinhoso sela o nosso encontro. Aguardo a porta se fechar e me levanto. Fico em pé junto à janela para vê-la desaparecer em meio às curvas da minha vida. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
[email protected]