ILUSTRADO
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011, 18h:35
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EM CARTAZ
Exposição de almanaques
Coleção exposta é do período de 1902 a 2009, com impressos distribuídos por mais de 30 laboratórios
Martha Baptista
Da Reportagem
É tempo de almanaque. Para as gerações mais antigas, o termo traz recordações muito agradáveis, um gosto de infância, de descobertas e sonhos. Para os mais novos, a palavra pode parecer obsoleta, mas é inegável que os almanaques continuam fascinando milhares de pessoas no mundo inteiro e, por isso, o apelo da exposição que chega nesta quarta-feira a Cuiabá tem um apelo irresistível. Tempo de Almanaque é o nome da exposição que será aberta a partir das 18h, no Centro Cultural Jamil Boutros Nadaf - SESC Arsenal, e poderá ser visitada até 16 de dezembro, com entrada franca. O curioso é que embora já tenha sido apresentada pelo Departamento Nacional do Sesc na 9º Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e na 14º Jornada de Literatura de Passo Fundo, a exposição tem como base parte do valioso acervo de uma cuiabana: a pesquisadora e escritora Yasmin Nadaf, mestre e doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela Unesp e pós-doutora em Literatura Comparada pela UFRJ. Interessada em compartilhar seus tesouros com a comunidade, Yasmin entrou em contato com o Departamento Nacional do Sesc, que viabilizou a exposição, elegendo seis eixos temáticos para a sua divulgação: a história dos almanaques, a mulher nas capas e na alma dos almanaques, a ciência popular e erudita, o tempo e o espaço (o calendário que marca o ritmo da vida), a publicidade farmacêutica e o lazer. A coleção de almanaques de farmácia de Yasmin compreende o período de 1902 a 2009, e reúne impressos publicitários editados e distribuídos por mais de 30 laboratórios diferentes, o que permite ao público conhecer a história da indústria farmacêutica no Brasil. O extenso período histórico e a diversidade de marcas laboratoriais - algumas com matrizes americanas ou francesas - fazem o diferencial da coleção.Segunda filha de Layla e Jamil Nadaf, Yasmin começou cedo a sua relação de amor com as letras e é dona de uma biblioteca singular de escritos do passado, que inclui centenas de livros, jornais, revistas e almanaques. Seu acervo particular está catalogado por ordem alfabética no site www.yasminnadaf.com.br, onde é possível encontrar relíquias impressas como romances da Coleção Biblioteca das Moças, a Coleção Menina e Moça, e os clássicos Romances-Folhetins da França. (com assessoria) TEMPO DE DESCOBERTAS Ninguém melhor para falar sobre essa paixão por almanaques do que a própria Yasmin Nadaf. Confira alguns trechos da entrevista dada ao Ilustrado:Como surgiu seu interesse por almanaques?Minha iniciação com a leitura dos almanques de farmácia se deu com a leitura do Almanaque do Biotônico Fontoura, que atravessou minha infância e pré-adolescência. Toda criança do meu tempo de criança conhecia o Biotônico Fontoura. Todas o provaram (e aprovaram) porque queriam crescer fortes e sadias, como ditava o rótulo do vidro desse milagroso xarope. O Almanaque do Biotônico (depois Almanaque Fontoura) foi criado, redigido e ilustrado em 1920 por Monteiro Lobato, nele introduzindo o personagem Jeca Tatu, um caipira que fez tanto sucesso que posteriormente passou a integrar as páginas dos livros do escritor. Lobato era amigo do farmacêutico Cândido Fontoura, o que explica a iniciativa de sua criação: o laboratório trazia em seu catálogo o fortificante Biotônico, entre outros medicamentos que combatiam a lassidão e as verminoses espalhadas pelos quatro cantos do país, e Jeca era um portador do amarelão curado com a Ankilostomina Fontoura. A popularidade desse almanaque foi tamanha que sua tiragem oscilou entre dois e três milhões e meio de exemplares durante as décadas de 1930 a 1970.Da coleção desse almanaque guardei alguns exemplares. Gostava de ler e ver aquela história em quadrinhos do Jeca Tatuzinho dentro de uma revista séria, entregue nas farmácias, o que conferia uma maior notoriedade a esse gibi quando comparado aos demais comprados nas bancas, que eu ia adquirindo e também colecionando. Farmácia, nessa época, era vista como um espaço sagrado, de respeito, habitado por gente com propriedade para curar as nossas dores e feridas. Fui crescendo e adquirindo em sebos espalhados pelo Brasil outros almanaques. Tenho uma coleção de almanaques diversos, que não se restringem aos almanques de farmácia: o Almanach Bertrand, Almanach Eu Sei Tudo, Almanaque do Correio da Manhã e outros que se limitavam a temas mais específicos, como o Almanach das Senhoras, voltado ao universo feminino (o mais antigo que tenho, datado de 1880), o Almanak do Mensageiro da Fé, com ênfase na divulgação da religião católica, o Almanaque Agrícola Chácaras e Quintaes, com destaque para a agricultura e avicultura, o Almanaque Andorinha, com a atenção voltada para a exposição dos produtos de uma fábrica de tecidos, entre outros. Tenho ainda em meu acervo dois almanaques franceses: Almanach Hachette (de 1939) e Almanach de Lettres (de 1949). Além deles, disponho e leio almanques mais recentes, como o Almanaque Abril, o Almanaque do Pensamento, e o Almanaque de Cultura Popular, distribuído nos vôos pela TAM. Estes almanques diversos, junto aos de farmácia, me proporcionam um prazer indescritível de retorno a uma grata faceta do meu passado, quando me via uma curiosa leitora-mirim da escrita popular ou erudita sem descriminação; eu amava os almanaques e gibis como amava os clássicos da literatura universal. Igualmente, tais impressos levam-me satisfatoriamente ao passado da cultura popular brasileira, permitindo-me vislumbar o patrimônio histórico de real valor que carregam; nascente para pesquisas e descobertas à mercê dos interessados. Tem predileção por algum deles?Sinceramente não - cada um tem seu charme, sua especificidade, seu lugar. Como se sente ao compartilhar esse tesouro com a população brasileira (em especial, a mato-grossense)?Muito feliz. E confesso a você que eu não tinha a exata dimensão do significado dessa Coleção para o Brasil. Claro que como profissional das Letras eu sei da importância desse impresso. Um impresso que, diga-se de passagem, foi o maior veículo de comunicação (escrita) no Brasil, num determinado tempo da nossa história. Porém, como sou o tipo de pessoa meio encalhada nas coisas do passado, sempre me ficava a dúvida se esse meu acervo de almanaques e os de outros gêneros escritos que tenho (como o meu amado acervo de romances de massa do século XIX e 1ª metade do século) teriam a mesma importância para um contingente ou um aglomerado de pessoas de diversos perfis. Somente na Flip, deste ano, onde foi aberta a Exposição Tempo de Almanaque, pude constatar o quanto esses escritos são valiosos para a população brasileira (e estrangeira) de modo geral. Lá, pude ver in loco como esses impressos mexem com a memória afetiva das pessoas. Tanto em Parati como em Passo Fundo, durante a Feira Literária, em agosto, ouvi relatos e relatos de leitores de almanaques. Ao passearem pela exposição os visitantes faziam uma verdadeira viagem de retorno ao tempo, e iam rememorando suas leituras e me agradeciam emocionados por estarem revivendo esse pedaço de suas histórias. Isso me foi muito gratificante. Essa experiência me fez crescer. Box Um pouco da históriaTestemunhos de uma época, os almanaques de farmácia, editados no Brasil pela primeira vez no século XIX, chegavam até os lugares mais distantes do país, veículos de publicidade de medicamentos produzidos por modernos laboratórios farmacêuticos, prometiam saúde e beleza, e eram também uma importante fonte de informação gratuita para a população rural e urbana. Com formatos ágeis, cuidadosamente ilustrados e com uma grande diversidade tipográfica, em geral apresentando edições anuais, essas revistinhas cumpriram durante décadas a função de informar e entreter, até mesmo nos locais de maior carência cultural. Inicialmente estampavam impressões com uma única cor, até ganharem versões mais caprichadas com duas e com as quatro cores atuais. Alguns exemplares vinham ainda acompanhados por graciosas cordinhas, para serem pendurados na parede ou na porta, ao alcance da família, ocupando um lugar de destaque nas casas.Pioneiro almanaque de farmácia no Brasil, o Pharol de Medicina, produzido com patrocínio da Drogaria Granado, Rio de Janeiro, circulou de 1887 a 1940, e serviu de modelo para seus sucessores. No início do século XX, o número de remédios e de almanaques produzidos aumentou. Esse período coincide com um momento de polarização entre a vida urbana e a rural, mas as revistinhas continuavam se dirigindo tanto à população da cidade quanto à do interior. Novos valores urbanos foram divulgados, assim como tendências da moda e de comportamento. SERVIÇO O QUE: Exposição Tempo de Almanaque ONDE: Sesc Arsenal QUANDO: de 16 de novembro a 16 de dezembro QUANTO: entrada franca INFORMAÇÕES: (65) 3616-6901