ILUSTRADO
Sábado, 03 de Abril de 2010, 13h:30
A
A
CRÔNICA
Eu só quero chocolate!
Valéria del Cueto
Especial para o Diário de Cuiabá
E samba. É tudo que eu preciso para aguardar pacientemente que a gripe insuportável que me assola deixe meu corpo moído em paz. Acho que é gripe por que estou espirrando horrores. Cerquei a maldita por todos os lados. Apelei para a alopatia, homeopatia e cachaçoterapia. Ela finge que vai. Eu me animo toda. E daqui a pouco é dor no corpo, uma falta de paladar, uma sombra de apetite
Já senti dezenas de sintomas: ossos moídos ( é dengue) rosto congestionado (é resfriado), pigarro
Opa, pigarro não! Hoje o pneumologista para quem estou devendo uns exames me deu a boa notícia que meus pulmões estão limpinhos! Para resumir meu estado, diria que a gripe só está procurando a área alvo onde seu ataque pode ser mais danoso. Tentei educadamente explicar para ela que prefiro enfrentá-la frente a frente, podendo enumerar claramente os sintomas da catástrofe, a ficar nesse lero-lero, nesse chove e não molha. Explode espirração! Já pedi, solicitei, exigi e cá estou eu, uma quase nada adoentada. Aí, entra o chocolate do título e o samba da primeira linha. Durante o dia, com um milhão de coisas para fazer, além da determinação ferrenha de abortar os sintomas épicos que rondavam meu pobre ser, apelei para a hidroginástica. Com sol, chuva e calor. Acabei matando um pouco da série por que fiquei
com frio. Subi para me arrumar (calor) desci a pé até a produtora (inferno), entrei pela recepção (friozinho de alívio) e passei pelo corredor (fresquinho) cruzei pela garagem (forno), e adentrei meu ambiente de trabalho a ilha de edição, com seu ar condicionado a 18 graus. Sorte que meus cabelos estavam quase secos, senão o estrago poderia ser ainda maior. No final da tarde andei rua acima, que a calçada parece pista de bicicross, de tanto buraco, calombo e desnível, ainda com o bafo quente de uma pós-chuvarada subindo pelo asfalto maltratado da cidade. Aí, já não era eu. Cheguei no apartamento aos trancos e barrancos, com uma dor nas costas de fazer inveja a do Corcunda de Notre Dame (as costas dele deviam doer muito, basta olhar como ele andava desequilibrado). Alcançamos então as últimas trincheiras da minha resistência física e meu alívio psíquico: o chocolate e o samba. Só eles me confortam num estágio terminal como o que me encontro. Enquanto Nei Lopes suinga o Chutando o Balde no computador (acho que li outro dia uma crônica com esse título) e escrevo estas linhas testamento, deixo derreter na boca um naco de chocolate amargo com umas mordidinhas pra amaciar o tablete. Quando ficar no ponto, tomo um golão de água e deixo a mistura descer garganta abaixo bem espessa. Va-ga-ro-sa-men-te. Repito a operação desmanche com outro golinhos até não restar mais nenhum traço do chocolate na boca. E aí, começo tudo de novo, com outro quadradinho. Também fica uma delícia se for com chocolate Alpino... O mundo pode ser uma gripe, mas por um simples prazer, peço licença e aviso: é aqui que eu quero (e vou) descer. Na bagagem levo um bom chocolate e um pouco de água do balde do samba pra espirar pelo salão desta crônica- enredo da influenza dançarina que tenta me afligir. Se meu remédio não funcionar, chamem o médico, por que gastei todos os meus truques para me livrar desta ingrata que se recusa a me largar! * Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM. E colabora com o DC Ilustrado. Outros textos da jornalista no http://delcueto.multiply.com