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ILUSTRADO
Sexta-feira, 26 de Junho de 2015, 13h:50

PERSONALIDADES

Este fim de semana é de Vera e Zuleica

A dupla de cantoras e compositoras se apresenta em meio à festa bem cuiabana que o grupo Flor Ribeirinha comanda no Teatro do Cerrado

BEATRIZ SATURNINO
Da Reportagem
Uma é carioca da gema e a outra cuiabana, e juntas formam a expressão da cultura mato-grossense com o rasqueado cuiabano, se apresentando como Vera e Zuleica, do eterno grupo Sarã. Aprendizes, religiosas, vegetarianas e alegres, elas já dedicaram mais de 30 anos à resistência da multiculturalidade. Há pouco mais de um ano sem subir nos palcos, a dupla se apresenta até domingo (28), às 20h, no Teatro Zulmira Canavarros da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, como ativas participantes do espetáculo “Nandaia”, do Grupo Flor Ribeirinha. “O show é um investimento para a construção de cultura regional”, convida a carioca Vera Regina Magalhães Baggetti que, na expressão popular, “comeu cabeça de pacu” e aqui por Cuiabá ficou, apaixonada pela cultura mato-grossense. Muitos as conhecem, porém nem todos sabem de suas vidas e trajetórias. A começar por Vera, que nasceu no Hospital da Aeronáutica da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde o pai trabalhava. A mãe ainda continua no Leblon, mas Vera viveu mesmo em Jacarepaguá e em Madureira. Botafoguense, faz questão de dizer que é anti-flamenguista e Portela roxa. Em sua bagagem, além de compositora e cantora, é arquiteta e urbanista, mestra em Educação Patrimonial, professora universitária, artista plástica e amante da culinária vegetariana. Pontos em comum vivem Vera com Zuleica, que também pinta, é professora universitária, ainda arte-educadora, bacharel em Direito, com duas pós-graduações em Gestão Cultural e de Metodologia do Ensino da Arte. Zuleica Cunha de Arruda nasceu na calorosa rua Joaquim Murtinho, em Cuiabá, onde viveu até seus 18 anos e depois saiu para se casar, separou e tem um filho adotivo. O pai, Manoel José de Arruda, foi prefeito da capital, e foi consagrado com o nome da avenida conhecida como Beira Rio. A cuiabana se define como uma aprendiz na vida, tomando consciência das leis divina, “sempre tendo no coração um profundo agradecimento a Deus”. É flexível como o balanço de uma rede cuiabana, num contrabalanço com a personalidade também alegre de Vera. “Mas não pisa no meu calo”, diz Vera com riso solto. A composição na vida delas não tem fim. “Mamãe diz que até se um ladrão passar por aqui dá música”, eleva o riso, animada com o momento que vive, com a participação do espetáculo em prol ao Flor Ribeirinha, neste final de semana, com cachê doado. A temática das músicas é a realidade que vivemos, de amor e carinho por Cuiabá, Mato Grosso e pela Cultura brasileira. O que mostra que elas são da arte e não precisam fazer manutenção da carreira, que já flui naturalmente. Para elas a criação vem num estouro de emoção, que brota de repente. É um insight e não tem lugar determinado. E lembram da música “A Criação”, de João Nogueira, e cantam parte do refrão do samba assim: “Ela é uma luz que chega de repente/ Com a rapidez de uma estrela cadente/ E acende a mente e o coração.” Vera e Zuleica são as criadoras das conhecidas músicas “Moreninha Cuiabana”, “Prece ao Luar”, “Casa de Bem Bem”, dentre outras. Em toda a história de trabalho somam mais de 300 composições, sendo a maioria de Zuleica. Na demarcação de suas criações existem dois tipos de criação. Uma é cartesiana, que é o briefing, um material intelectual como fizeram para a campanha política do falecido Dante de Oliveira. Já a outra é de maneira emocional e afetiva. A última gravação de CD foi em 2007 e tem no currículo dois, o “Só Rasqueado Cuiabano” e o outro é o “Em Cantos de Mulher”, inspirado pela promulgação da Constituição Cidadã de 1988. Mas antes disso gravaram um LP (long Play), “Raízes de Sarã”, que foi responsável pela ida delas até a Europa, onde moraram por quase três anos, a convite de um maestro austríaco que ficou encantado com o trabalho artísticos das duas entusiasmadas parceiras. O maestro ouviu a voz da dupla num encontro de música em Brasília, por intermédio de um amigo delas, que apresentou o material, e o convite foi feito em visita até Cuiabá. Por lá tiveram a oportunidade de aperfeiçoar a arte da linguagem musical de todos os países, na terra que representa a música, na Áustria, onde desenvolveram e exploraram as músicas indígena, afro e o rasqueado, com o grupo “Sarã Cabloco Jazz”. Também fizeram samba com rasqueado com o grupo “Rot-Weis-Rot”, que significa, “Vermelho, Branco e Vermelho”, que são as cores da bandeira austríaca. Depois desse bombardeio de informações e experiências retornam ao Brasil, para continuar a carreira e ficarem próximas de família e amigos, e selam uma grande parceria e amizade com o saudoso sambista Joãozinho Trinta, num encontro em Cuiabá, e que resultou numa consultoria de 20 anos, até a morte desse grande artista do carnaval carioca. Foi apresentada a ele a história de Tereza de Benguela, uma rainha negra de um Quilombo entre as regiões dos municípios de Comodro e Vila Bela da Santíssima Trindade, e que virou enredo da escola de samba Viradouro, do Rio, no Carnaval de 94. “Foi através de suas informações que tomei conhecimento das riquezas culturais deste lugar: o cururu, o siriri, a dança do congo, o licor de pequi, suas histórias, seus ‘causos’, mitos e lendas. Fiquei sabendo sobre a importância, no contexto sociocultural mato-grossense, da tão querida viola-de-cocho, símbolo carregado de tanta energia milenar – hoje com a cara de Mato Grosso. E o que me deixou inebriado foi a cadência do ritmo musical rasqueado cuiabano. Vera-Zuleika são experts no assunto”, descreve Joãozinho Trinta no livro “O que é o Rasqueado Cuiabano”, de Zuleica Arruda.

Edição EDIÇÃO 16966




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