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Cuiabá MT, Sábado, 20 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 17 de Julho de 2010, 13h:02

CRÔNICA

Em campo

Valéria del Cueto*
Especialpara o Diário de Cuiabá
Estou na área, na cara do gol. Pronta para mudar, com um leve toque, o placar. Fazer história, entrar para a memória coletiva popular anonimamente. Um por todos e todos por um, é o lema deste esquadrão. Ouço o zumbido de vuvuzelas enquanto me movimento desajeitadamente em direção ao mosquito sanguinário que pica o peito do meu pé. Me desequilibro no banco de madeira maciça onde escrevo nas derradeiras páginas da uma caderneta 98,5% escrevinhada. Já disse antes numa outra crônica que estas são as mais complicadas. Pela dificuldade de abandonar o caderninho, companheiro de tantas histórias. Este traz na capa o ideograma da SABEDORIA. As cores dominantes são o vermelho, o negro, o branco e o dourado. Várias vezes, quando penso nos temas das crônicas e as atitudes na vida a tomar fico olhando suas formas, viajando nos seus traços, tentando entender a dinâmica da linda ilustração. Quanta sabedoria incrustada em suas linhas e curvas. É um ideograma chinês (ou será japonês?). Pausa pra lembrar a história do cara que fez uma tatuagem símbolo oriental e levou um tempão pra descobrir que o ideograma significava COCA COLA... Voltando a ele, acho que entre mortos e feridos o caderninho da sabedoria tem feito seu papel. De vez em quando demoro e só pego no tranco. Mas pelo menos (acho eu) tenho conseguido um pouco mais de paciência para resolver as coisas. Um pouco mais de tolerância para esperar o momento certo para agir. Nem sempre é assim, ressalto, mas sinto o efeito da “sabedoria” no computo geral das minhas ações. Sorte do entorno. Azar o meu, que tenho encontrado no silêncio e na ausência o ponto de equilíbrio da minha pouca sapiência. Respiro fundo. Olho para a bola, ignoro o universo. Não preciso correr. Um leve toque, e ela faz uma curva jabulâmica, toma a velocidade certa, passa no alto, a esquerda do último defensor que se estica todo, passeia quase na gaveta e, como boa jalulântica, despenca um pouco e explode na rede, dentro do gol. Antes da comemoração sinto que estou saboreada, degustada, atacada pelos mosquitos (irmãos irados do anteriormente exterminado) que ocupavam a vegetação no banco onde me aboleto. Tudo acontece ao mesmo tempo. A luz se vai de uma vez, já não enxergo mais nada. Mas, pelo esforço que faço nesse vôo cego para escrever, posso sentir que o caderninho da sabedoria... acabou! Somos, você – querido e fiel leitor que me acompanha - e eu, mais uma vez campeões! *Valéria del Cueto é jornalista, cineasta, gestora de carnaval e colabora com o DC Ilustrado. Outros textos da jornalista no http://delcueto.multiply.com

Edição EDIÇÃO 16967




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