NA HORA
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Cuiabá MT, Domingo, 14 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sexta-feira, 27 de Junho de 2014, 20h:29

CONTO

Dois Goles de Café

*Rafaella Elika Borges
Especial para o DC Ilustrado
Ele estava atrasado há quarenta minutos. Ele nunca se atrasava e ainda brigava quando eu chegava um pouco além do combinado. Eu sabia o que ele andava fazendo, estava saindo com aquela moça loira do terceiro andar. E havia visto as mensagens trocadas com a morena do prédio da frente no celular dele. Nunca comentei nada, desde a primeira vez que achei seu celular aberto na página de mensagens. Eu vi tudo. Depois daquele dia tentei achar motivos para tudo aquilo. Não achei. Lavava, cozinhava, amava. E só eu arrumava suas meias. “Não gosto quando amarra minhas meias uma nas outras, isso estraga elas”. “Então comece a arrumar suas próprias meias”. Ele me enchia de cócegas quando o retrucava assim. Porra, por que estava me traindo agora? — Desculpe a demora, eu estava tentando achar um lugar para estacionar. Mas então, já pediu alguma coisa? Eu estou morrendo de fome e de frio. — Não pedi nada ainda, estava esperando você chegar. — Demorei quase uma hora e você ainda não pediu nada? — Pra você ver, né. Ele estalou a língua na raiz dos grandes dentes de cima. — E o meu frio, como fica? Vai me esquentar ou vou ficar com frio e fome, os dois de uma vez? Eu sorri. Mas no fundo queria mandá-lo se esquentar nas chamas ardentes do inferno abraçando o ilustre capeta rubro e de narinas fumegantes encarnado. Acho que nunca fiz nada certo para ele, sempre fui o avesso do que ele queria que eu fosse, mesmo eu sendo o máximo que poderia ser, o máximo do que ele queria que eu fosse. Me espremeu feito uma laranja verde. Tomou o pouco suco que tirou e depois colocou os gomos espremidos na boca. Mastigou, mastigou, mastigou. Cuspiu o bagaço todo para fora e fez chá da casca. — Vem cá, eu esquento você. Duas xícaras de café chegaram e ele pegou uma enquanto sua cabeça estava escorada em meu colo branco meio coberto pela blusa de mangas longas que ele havia me dado. Em um súbito, seu celular vibrou em minha coxa e ele o desligou rapidamente. Eu abri os lábios para perguntar com quantas garotas ele estava de putaria recentemente e por que ele não sentia nenhum remorso em sentir prazer com outros corpos que não fossem somente o meu. Mas o que levei à boca foram dois goles de café. E nada mais que isso. *Rafaella Elika Borges é estudante de gastronomia e escreve neste DC Ilustrado semanalmente.

Edição EDIÇÃO 16962




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