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ILUSTRADO
Sábado, 20 de Agosto de 2011, 12h:38

CANTORA

De Cuiabá para a Lapa

Luciana Bonfim se mandou para o Rio de Janeiro a oito meses e solta a voz num do tradicional bairro carioca

Martha Baptista
Da Reportagem
A Lapa carioca, onde moraram o escritor Machado de Assis e a cantora Carmem Miranda, sempre foi um dos maiores redutos da música popular brasileira e hoje é considerado o segundo maior destino dos turistas estrangeiros no Rio de Janeiro. É difícil resistir ao charme do bairro historicamente ligado à boêmia, onde as noites – de segunda à segunda-feira – são sempre animadíssimas, regadas a muito samba (e outros ritmos que foram chegando), chope e paquera, com a presença de adultos de todas as idades. Pois é na Lapa, bem pertinho dos famosos Arcos, onde passam os bondes que levam ao bairro de Santa Tereza, que “uma cuiabana do pé rachado” vem trilhando seus caminhos musicais. Luciana Bonfim, também conhecida como Lú Bonfim, resolveu se mudar para o Rio em dezembro passado para dar continuidade a uma carreira recente e bem sucedida como cantora na capital mato-grossense. “Quis aproveitar meu primeiro verão aqui”, conta diretamente do Rio de Janeiro, onde mora pertinho do Aeroporto Santos Dumont e de seu local de trabalho. Oito meses após a mudança, ela garante que está feliz e não se arrepende da decisão. Aos 31 anos, Luciana está cantando no bar Lapaesquina, que fica ao lado dos Arcos e em frente ao bar Semente, onde surgiu a cantora e compositora Teresa Cristina – uma referência absoluta para quem gosta de samba. “Ainda quero tocar no Semente”, confidencia. Aos 31 anos, Luciana, que é formada em Comunicação Social (Publicidade e propaganda), pretende aproveitar a permanência no Rio para fazer o mestrado na área. Antes de se mudar para o Rio, ela viveu em sua cidade natal praticamente a vida inteira e só passou um ano fora, em Curitiba (PR), fazendo conservatório de música. Quando retornou a Cuiabá começou a cantar samba em bares da capital, como o Choros & Serestas e o Clube da Esquina, entre outros. Conquistou a simpatia do público com sua voz de timbre forte e suas interpretações cheias de energia, vibrantes, que lembram às vezes cantoras da estirpe de Ellis Regina e sua filha Maria Rita. No Rio, Luciana, que também é compositora, continua se dedicando ao samba e o repertório é formado pelos clássicos e também por canções novas que ela vem escutando: de compositores como Rodrigo Maranhão, Pedro Luis e a já citada Teresa Cristina. Sua música preferida – aquela que não pode faltar em show algum – é “Minha missão” de João Nogueira e do letrista Paulo César Pinheiro: “Ela sempre me emociona”: “Quando eu canto/É para aliviar meu pranto/E o pranto de quem já/Tanto sofreu” (...) APESAR DAS SAUDADES ... Segundo Luciana, morar no Rio era uma vontade antiga. “No final do ano segui minha sina”, diz. Ela já conhecia a cidade de viagens de férias e tinha vários amigos na chamada Cidade Maravilhosa. “Na verdade, aqui tem um grande clã do Cerrado”, comenta, numa referência aos fortes laços afetivos que sempre uniram os cuiabanos (e mato-grossenses de modo geral) ao Rio de Janeiro. É claro que morar numa capital desse porte tem suas dificuldades e a primeira enfrentada foi encontrar um lugar pra morar, já que, na opinião de Luciana, o custo de vida no Rio consegue ser bem mais alto que em Cuiabá. Mas as alegrias compensam. A maior de todas até agora, conta Luciana, foi poder cantar no coração da Lapa. Ela adora também poder freqüentar a noite carioca e a ideia de “ter o mar bem ali”. No Lapaesquina, Luciana se apresenta acompanhada de “ótimos músicos” e sempre aparecem vários outros de boa qualidade para dar canja. “O que não falta aqui é gente talentosa”, reconhece. Luciana já cantou também em duas unidades do SESC e em outros barzinhos e casas a convite de amigos. Ela garante que não pensa em voltar a Cuiabá. “Quero construir uma carreira aqui, mas não quero deixar Cuiabá de vez. Minha família toda é daí, meus amigos, toda minha história. Penso em voltar pra visitar e cantar sempre que puder”, garante. Ela admite que sente muita falta de sua família e dos amigos da capital mato-grossense. E manda um recado para seus fãs: “Sinto saudades do calor de todo mundo”. Luciana entende que é muito difícil viver de arte em qualquer lugar do Brasil, seja no Rio de Janeiro ou em Mato Grosso. “É difícil viver de arte em todo canto. Pelo menos é isso que escuto de todo amigo que trabalha com arte, mas tudo que é feito com o coração e alegria, vale a pena”, argumenta. Luciana diz estar muito feliz, apesar “dos momentos ruins” que sempre existem. Seu maior sonho? Continuar cantando. Num universo com tantas cantoras, ela aposta na singularidade de seu timbre vocal. “Só que inúmeras cantoras também têm o timbre bonito e único, então, entendo que não é o que basta. O que conta é o conjunto de fatores como trabalho, estudo, verdade e amor pelo que se faz”, conclui. A gente fica aqui na torcida por boas notícias do Rio.

Edição EDIÇÃO 16969




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