ILUSTRADO
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009, 21h:11
A
A
ARTE PÚBLICA
Carybés ressurgem em Miami
Jotabê Medeiros
Agência Estado
De um lado, pioneiros com armas e cães avançam cavalgando e conduzindo carroças rumo ao Oeste, com faces sombrias e queixos erguidos, orgulhosos. Do outro lado, dezenas de festeiros de todas as Américas: habitantes do altiplano boliviano, deuses maias e astecas, violeiros country, flautistas, índios do mardi gras de New Orleans - e, se o viajante reparar bem, verá também uma baiana do acarajé no lado esquerdo do painel. Essa baiana do acarajé é uma espécie de segunda assinatura do artista que fez esses gigantescos murais: Hector Julio Paride Bernabó, que o Brasil conhece simplesmente como Carybé (1911-1997). Trata-se de uma das maiores obras de arte pública de um artista nacional fora do Brasil (Carybé nasceu na Argentina, mas desenvolveu obra e carreira na Bahia). Os coloridos murais de Carybé quase foram destruídos no ano passado. Isso mesmo: destruídos. Desde 1960, estavam instalados (o próprio artista os fez ali, sozinho, com pedra, cinzel, cimento e ferramentas, após ganhar um concurso em 1959) em um terminal de passageiros do Aeroporto JFK, em Nova York. Obsoleto, o prédio seria demolido para dar lugar a instalações mais modernas. Em meados do ano passado, admiradores da obra descobriram que os murais só teriam mais um mês de existência. Em poucos dias, seriam dinamitados, 50 anos após desenhados. Mas, por artimanhas do destino e, claro, dos orixás, os murais foram salvos por velhos (e poderosos) amigos de Carybé, para quem a notícia caiu como bomba. Cortados em 12 pedaços, foram trazidos a Miami - e cuidadosamente restaurados, recuperados e reinstalados no aeroporto da cidade, nas paredes que margeiam uma escada rolante no novo Terminal Sul. Serão reinaugurados hoje à noite com pompa e circunstância, com a presença do prefeito local e autoridades. A viúva de Carybé, Nancy, de 85 anos, veio da Bahia com a família para assistir ao renascimento da obra.