MATHEUS JACOB BARRETO
Especial para o DC Ilustrado
CANTO IV, 102: Oh! Maldito o primeiro que, no mundo, / nas ondas vela pôs em seco lenho! Avisando o que não é necessário avisar: toda leitura é parcial. Admitindo isso e não vendo nisso problemas, começo minha coluna de hoje. Os Lusíadas de Luís de Camões (1524-1580) é um livro ideologicamente perverso, e isso fica mais evidente nos tempos atuais (ao longo do texto isso ficará mais claro). É, ao mesmo tempo, uma das grandes obras de arte ocidentais, seja na maestria de ritmo e rimas condicionadas pelo controle total da forma, seja na imaginação ali posta, seja na cristalização absoluta de versos que o tempo não pode e não vai esquecer. Essa ambiguidade, essa convivência entre genialidade e ideologia viciada é uma contradição muito recorrente à qual teremos de nos acostumar se quisermos ler o que de melhor já se produziu na arte ocidental. Faço aqui uma segunda pausa para deixar outra coisa bem clara nesse início de coluna, a saber: não podemos nos esquecer de um ponto tão importante quanto delicado, que é o de tratar-se aqui (como em qualquer outra coluna minha) de uma obra de ficção. Ou seja, cair na simplificação de tratar o livro como um relato verídico e por isso culpabilizar o seu autor como se as opiniões ditas ali fossem as do próprio escritor é um grande amadorismo (já diria Rimbaud: Eu é um outro). Ficção não é realidade. Realidade não é ficção. Mas isso não nos impede de problematizar a questão, e é isso o que a coluna de hoje se propõe a fazer: colocar para pensar, fazer refletir. Não há como não admitir a genialidade de Os Lusíadas ao ler versos como os seguintes (mantenho nos poemas aqui reproduzidos a grafia do século XVI!)