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ILUSTRADO
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009, 21h:10

CACHORRO GRANDE

Banda gaúcha enterra fase vira-lata

“Cinema” é o nome do quinto trabalho que chega do quinteto dos Pampas, que chega nestes tempos de fim de sonhos e utopias

Marco Bezzi
Agência Estado
Música digital, iPod, Bluetooth, Sandy sem Junior. Não é à toa que pensadores e filósofos de botequins tratam os tempos modernos como o período do fim dos sonhos e das utopias. Mas há aqueles atrelados às décadas de 60 e 70 que conseguem dialogar com a nova geração. Ao lançar o quinto disco de carreira, os gaúchos da Cachorro Grande dão mais um passo em direção àquilo que chamam de "crescer devagar e sempre". Para o grupo, vinil e música digital têm que andar juntos. "Vou começar até a twittar", brinca o guitarrista Marcelo Gross. Ele e o vocalista Beto Bruno receberam a equipe de reportagem do "Grupo Estado" na sala de seu empresário em São Paulo. A dupla, mais o baterista Gabriel Azambuja, o baixista Rodolfo Krieger e o tecladista Pedro Pelotas moram na capital e sabem que os novos tempos exigem mudanças. "Minha filha baixou todos os discos do The Who em poucas horas. Eu demorei anos pra completar a minha coleção, mas vou falar o quê?", conta Bruno, 36 anos, pai de uma garota de 18. Já Gross diz que vai pular do Atari para o Playstation 3 só para aproveitar o "Rock Band" dos Beatles, que será lançado em setembro. "Até chorei quando vi o teaser na internet. Vou também comprar um laptop pra levar para as viagens. Esse negócio de internet é muito louco", aponta. Falando do novo álbum, "Cinema", estética e sonoridade continuam a flertar com o passado, agora, sem tantas amarras que permitiam apenas as comparações com Beatles e The Who. "Estamos numa fase space rock. Sempre ouvimos esse tipo de som, mas nunca nos permitimos colocar na nossa música", fala Gross. "Cinema" traz um som inspirado nos anos 60 e 70 e admite Pink Floyd, Jethro Tull e Led Zeppelin. "Escutamos muitas coisas como o "More" do Pink Floyd, o segundo e terceiro álbum do Animals. Aquele elo perdido entre o final do psicodelismo e o início do rock progressivo", ressalta Bruno. A aproximação com uma sonoridade mais rebuscada já se tornou possível, pois a banda gravou todas as 12 faixas em fitas de rolo de 2 e meia polegadas - o quarteto, com o produtor Rafael Ramos, passou cerca de 20 dias no estúdio da Acit (em Porto Alegre). A busca por um verniz ainda mais vintage traz a discussão sobre os detratores do grupo. "Tem gente que ainda diz que nos vendemos, que não fazemos mais aquele rock visceral de antigamente. Pura bobagem. Beatles e The Who sempre gravaram nos melhores estúdios da Inglaterra", rebate Gross. "Os motivos são todos, menos musicais." O guitarrista ainda lembra de um episódio que aconteceu há pouco tempo. Um fã "das antigas" veio interpelá-lo, reclamando que o grupo não faz mais álbuns como "As Próximas Horas Serão Muito Boas", de 2004. "Não conseguíamos lançar o disco e gravamos como deu. O cara veio falar que gostava daquela sonoridade tosca. Só foi feito assim porque não tínhamos condições de fazer melhor." Sobre o "ser arrogante" que alguns ainda teimam em rotular o grupo, Gross responde: "Essas pessoas nunca vieram falar com a gente. E se elas estão preocupadas se somos arrogantes ou não elas não devem ouvir nossa música. É coisa de quem não tem vida própria e precisa ter um ídolo como espelho." O disco que chega agora no formato CD será lançado até o fim do ano em uma edição especial em vinil, uma das paixões - elementar - da dupla. "Eu preciso ainda pegar o disco, guardar ele na prateleira", assente Bruno. "Lembro a minha vida nos últimos dez anos usando os discos como referência." Sem ter um "bum" que os fizesse cair no gosto do povo, Gross sabe aonde pode chegar. "Fazemos um rock inglês cantado em português em um país que ama samba e bossa nova. Acho que estamos nos saindo muito bem."

Edição EDIÇÃO 16962




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