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Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 21 de Dezembro de 2013, 13h:38

CRÔNICA

Aos que leem artigos de jornal (2ª versão)

Dos nossos mais antigos colaboradores, Marinaldo Custódio publica crônica e promete participações regulares no DC Ilustrado em 2014

Marinaldo Custódio
Da Reportagem
Hoje, quando o jornal chegar às bancas e aos endereços dos assinantes, sei que estarei sendo lido por algumas pessoas. Naturalmente, as páginas de opinião dos periódicos não causam o mesmo impacto sobre os leitores que as de esportes ou polícia, por exemplo. Mas têm lá o seu charme, pois muitas pessoas se interessam em saber o que as outras pensam e como fazem o “recorte crítico” do assunto – desde a escolha do tema até o desenvolvimento da argumentação. Uns poucos até vão mais além e sondam eventuais teores literários naquilo que, em tese, teria sido escrito apenas para ser um artigo. Digo em tese porque muitos (inclusive eu) às vezes já escrevem deliberadamente para “causar”, isto é, para causar literariamente, como é óbvio. Agora, quanto ao público-alvo, se escrevo pra publicar em jornal, naturalmente não falo apenas para os meus iguais, para intelectuais ou gente metida a artista. Penso, sim, um pouco mais além e falo para os meus leitores de outros estratos sociais, os que a gente pensa que “não leem”, não se interessam nem estão preparados para discutir tais assuntos. Vou, assim, na trilha de um Raul Seixas, para além das cercas embandeiradas que separam quintais, falar com a Dona Maria no batedor de roupa, com o Seu José na oficina de consertos de calçados e bolsas, com o Aramízio e a Dona Rosa na chácara, com a Cleusa no salão de beleza da periferia, com a cobradora de ônibus Viviane, aquela ali de olhos verdes. Com os intelectuais, artistas e quase artistas, busco afinidades eletivas no campo das ideias; com os outros, busco afinação emotiva para compor e tocar a grande melodia universal do entendimento entre os homens e as mulheres de todos os grupos e tribos. Muitas vezes as pessoas do povo sabem, bem melhor do que os intelectuais, identificar a verdade ou o aspecto mais autêntico da verdade. Disso, por sinal, falou, e muito bem, o escritor Isaac Bashevis Singer num trecho de suas memórias romanceadas (Amor e Exílio), ao relatar as impressões passadas por sua mãe, uma judia polonesa sem curso superior nem nada, acerca da leitura de grandes romances. Singer diz: “Minha mãe lia Fome, de Knut Hamsun, e concordava, achava parecido com a realidade; mas ao ler Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, se impacientava, achava impossível haver pessoas e situações como aquelas, e implicava ainda mais com os diálogos, que achava demasiadamente artificiais. Então, bradava: ‘Mas não existem pessoas no mundo que falem desse jeito!’”. O próprio Singer reconhece que, àquela altura da vida, ainda jovem e em início de carreira, já tinha há muito perdido a sensibilidade da mãe e a capacidade de diferenciar um relato verdadeiramente humano de uma literatice qualquer. Para ele, um autor como Thomas Mann já passara a ser daqueles que valem por si mesmos, logo, como achar nele defeitos graves, como questionar se um dos maiores romancistas do mundo sabe ou não sabe retratar a vida como ela é? Por isso, a exemplo da mãe de Singer, temos de ter “topete” para procurar e enxergar a realidade e suas múltiplas facetas, para bem interpretá-las, sobretudo. Temos, sim, de estar sempre atentos para mostrar em nossos textos as visões multifacetadas da população em geral, procurando a verdade de cada um nos becos, nos coletivos, nos prostíbulos, nas igrejas, nas lan houses, nos shoppings de camelôs, nos grotões do campo e da cidade. Sem esquecer também, obviamente, dos bairros nobres, dos salões e gabinetes refrigerados, pois ali também pulsa a vida. Mas, convenhamos, essas formas de vida são as mais difíceis de ser esquecidas, porque há sempre muitos poderosos cobrando (e sobretudo pagando) para que se fale deles e nunca deixa de haver aqueles que se comprazem em fazer-lhes as vontades, lustrando-lhes os egos e garantindo, de lambuja, os trocados da sobrevivência e alguns flashes dos grandes holofotes do mundo.

Edição EDIÇÃO 16966




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