ILUSTRADO
Sábado, 21 de Maio de 2011, 13h:05
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SITÓ
A revolta do artista
Ele veio rodando do Ceará que nem folha seca no vento e acabou se enraizando em Cuiabá. Hoje é parte da cultura de MT
Martha Baptista
da Reportagem
Isto aqui é minha igreja. Com essa frase de boas-vindas o artista plástico Antônio Pereira da Silva, mais conhecido como Sitó, conquista a repórter. A igreja é seu ateliê, situado nos fundos de sua casa, a poucos passos de uma das rotatórias mais movimentadas da avenida Miguel Sutil. Lá, estão esculturas em madeira, com dois metros de altura, homenageando personalidades como o mato-grossense Cândido Rondon, o padre Cícero padroeiro do cearense Sitó e o jogador Ronaldo, o Fenômeno, entre outros. Espalhadas por todos os cantos estão telas cheias de significado e simbologia, como a do Trem de Mato Grosso, cujos vagões são manifestações da cultura regional como o cururu, siriri e rasqueado. Em cavaletes de madeira estão violões, cavaquinhos, violoncelos e violas esculpidos em madeira pelas mãos calejadas desse lavrador, que se tornou luthier de forma autodidata. Aliás, Sitó é autodidata em tudo que faz, o que torna mais surpreendente sua arte. Pergunto ao artista se toca algum instrumento e Sitó dedilha no violão a Marcha dos Marinheiros, de autoria do paulistano Dilermando Reis (1916-1977). A conquista se completa: os olhos da repórter se enchem de lágrimas diante do som delicado e da fisionomia inspirada do intérprete. Toda essa delicadeza, entretanto, vai se dissipando quando Sitó começa a falar da situação dos artistas mato-grossenses. Aos 80 anos, o presidente da Associação Mato-grossense dos Artistas Plásticos, fundada em 1990, está revoltado com o descaso das autoridades estaduais e municipais. - Nossa cultura está toda embaraçada, em crise, desde o início do governo Blairo Maggi (2003-2010). Não estou falando por mal, estou falando pelo bem de Mato Grosso diz. Segundo Sitó, os artistas plásticos estão sem apoio. Eles estão jururus, com fome e raiva dos políticos, reclama. O artista queixa-se também do fim de eventos como o Salão Jovem Arte Mato-grossense, o maior prêmio de artes plásticas, promovido pela Secretaria de Estado de Cultura e realizado até 2007, e denuncia que não recebeu os recursos relativos ao seu último projeto seu aprovado na Secretaria Municipal de Cultura. - Minha mãe dizia quem bate esquece, mas quem apanha lembra para toda vida diz para expressar a mágoa provocada pelo descaso com que as artes plásticas e a cultura em geral vêm sendo tratadas em Mato Grosso. O artista não existe para esses homens, mas se não existe artista para que Secretaria de Cultura?, questiona. COPA DO MUNDO Sitó preocupa-se com o advento da Copa do Mundo de 2014 por dois motivos. Primeiro porque ele corre o risco de ter desapropriado terreno onde mora com a família e mantém seu ateliê desde 1973, quando se mudou de Rondonópolis para a capital. Essa Copa só veio bagunçar. Já vieram aqui dizer que vamos ter que sair, revolta-se o artista que pretende lutar por seus direitos. Outro motivo de preocupação é a situação dos artistas em geral, que não estão conseguindo viver de sua arte. Quando vierem os turistas para os jogos o que vão visitar?, pergunta numa referência à tão propalada valorização da arte e da cultura local. Não há incentivo algum para os artistas produzirem, só papo furado, acusa. Sitó acrescenta que pintores de renome, que vendiam seus quadros por até R$ 3 mil, não estão conseguindo vendê-los nem por R$ 400. Muitos estão passando fome, desesperados, garante. Ele manda seu recado para os homens do poder: Tenham dó de artistas como eu. Olhem com mais carinho para a cultura que está em crise. Paguem nossos projetos para que nossos nomes não fiquem sujos. Vamos trabalhar pensando na nossa cultura, que é a mãe da educação e da sabedoria. Apesar da revolta, Sitó que se mudou adulto para Mato Grosso em 1958, criou nove filhos, já lavrou a terra e trabalhou duro como ferreiro não perde a ternura. Não me importo com o tempo. Eu me importo com a nossa luta, gosto de cantar, passear e trabalhar com arte, diz. Eu já era artista quando criança e fazia esculturas de barro no Ceará. Vim rodando como folha seca e estou enraizado em Cuiabá. Sou uma cultura de Mato Grosso.