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ILUSTRADO
Sexta-feira, 07 de Dezembro de 2007, 18h:40

RESENHA

A perseverança de um povo pela sua cultura

Estudantes de Letras de Tangará da Serra ‘destrincham’ documentário que enfoca drama de quilombolas de LIvramento

Mirian Cristina da Silva Schio*
Colaboração para o DC Ilustrado
Invasões de terras têm sido práticas constantes no país, deflagrando conflitos sangrentos entre fazendeiros e invasores, exigindo do poder público uma difícil missão: assentar essas pessoas e ao mesmo tempo acalmar os êxitos dos fazendeiros que não admitem tais medidas. No entanto, uma história de invasão de terras se faz na contra-mão. A história do complexo Quilombo Mata Cavalo, em Mato Grosso, contada pelas próprias pessoas que vivem esses acontecimentos, no documentário: “A Terra e o Tempo – vozes do quilombo”, produzido por Sérgio Brito. O documentário retrata a luta de uma geração de descendentes de escravos para retomar as terras que foram doadas aos seus ancestrais – essas terras seriam sem dúvida, a esperança de um futuro melhor, diante de uma almejada liberdade - pelo fazendeiro, Ricardo José Alves Brito e sua esposa, Ana da Silva Tavares, em 1883. Essas terras, ao longo do tempo, foram invadidas por fazendeiros que expulsaram os verdadeiros donos. Vejam que aqui se configura uma historia diferente: os fazendeiros são os invasores. Imperam na invasão o uso da má fé, o poder aquisitivo, a força bruta, a coerção sobre a simplicidade, sobre a falta de instrução. Isso fica claro quando as pessoas contam como seus ancestrais foram ludibriados na tomada das terras, como eles foram expulsos sob agressões - inclusive da própria polícia que tem o dever de proteger. Mas se nos passado a falta de lealdade, de honestidade se sobressaiu, no presente ela se confronta com a coragem, com a garra, a determinação de uma geração que luta para ter seus direitos reconhecidos, uma vez que os descendentes desses escravos voltam como herdeiros dessas terras e lutam na justiça para reavê-las, de forma legalizada. Um verdadeiro descalabro, recorrer à justiça para ter direito sobre o que já é seu. Diante de caso como o da comunidade Mata Cavalo, a justiça se apresenta morosa e sem credibilidade, pois o povo espera há muito uma solução por parte da justiça, ao mesmo tempo em que teme a falta de imparcialidade da mesma. Isso fica claro quando um dos moradores diz: “A justiça só existe para quem tem dinheiro, a nós cabe pedir a Deus.” Fica também às margens da competência, o INCRA, que provou ser um órgão que engatinha na questão de terras de quilombo, pois qualifica esse problema como um problema de reforma agrária, dificultando ainda mais a legalização desse processo. A luta e a determinação desse povo em retomar suas terras e manter viva sua cultura não foge ao perfil de seus ancestrais, que foram escravos e nunca deixaram de lutar pela sua liberdade. A história da comunidade Mata Cavalo é uma história que se faz como qualquer outra: contada de geração para geração, rica em cultura, luta, bravura, perdas e conquistas. Foi de forma inteligente e oportuna pesquisada por Sérgio Brito e equipe e registrada num documentário. Documentário este, que não deixa ninguém indiferente ao assisti-lo. Desperta sim, uma reflexão sobre as injustiças sociais sofridas pelo povo brasileiro - seja negro ou branco - a parcialidade da justiça, a falta de competência dos órgãos públicos, o desprezo que o governo dispensa ao seu povo. Enfim, a falta de humanidade que se instala dentro do poder público e inclusive entre as pessoas. *Mirian Cristina da Silva Schio é acadêmica do 2º semestre de Letras – UNEMAT – Universidade Estadual de Mato Grosso- Tangará da Serra

Edição EDIÇÃO 16966




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