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ILUSTRADO
Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2015, 21h:38

CRÔNICA

A missa de Dilma Rousseff

JOÃO BOSQUO*
Adoro o Papa Francisco, acho que ele é o cara do momento. Cheio de um vigor cristão que a muito tempo a gente não víamos na figura do papa. O anterior, vamos combinar, era meio que morfético, quase uma múmia paralítica, aquela que ficava ao lado do professor de mitologia, encarnado por Agildo Ribeiro. O Papa Francisco é uma simpatia. No dia que puder viajar a Roma ou Buenos Aires vou querer ver o papa, que está dando feição a essa nova igreja e alguns setores clericais estão resistindo a essas mudanças e não querem uma igreja mais voltada para o social. Se bem que na América Latina (“eu sou apenas um rapaz latino-americano...”) tivemos (ou temos) a Teologia da Libertação, cujo fundamento é o retorno ao Evangelho do Cristo em sua opção preferencial pelos pobres. Ops, Francisco faz essa opção? Será ele um defensor da Teologia da Libertação? Não vou entrar nessa seara, pois ela é muito, muito explosiva. Mas – sempre um, mas – vale registrar que o teólogo Leonardo Boff, em vários idiomas, escreveu uma carta de apoio ao Papa que vem sofrendo ataques – ferozes ataques – das minorias (segundo Boff) conservadoras dentro e fora da igreja. Porque estou falando tudo isso? Amigo leitor deve estar perguntando. Estou escrevendo tudo isso, não apenas pelo meu amor ao Papa, mas porque quero falar de uma missa. É bom explicar que não sou católico, melhor sou espírita, mas mantenho boas relações com amigas, amigos, irmãs, irmãos, filhas, filhos evangélicos, ateus, agnósticos, budistas, ocidentais, orientais e transcendentais... por que não católicos? Falar duma missa? Sim, falar de uma missa em especial que foi celebrada este ano antes do horário de verão. A pessoa que me contou, protagonista do fato, guarda apenas isso, esquecida do dia e do mês. A missa, claro, foi num domingo. Ela contou-me o que se passou, mas não sabe que estou narrando, por isso a omissão de nomes. A protagonista é minha vizinha. Uma senhora, beirando aí os seus 60 anos, e vai à missa de moto. Uma moto vermelha de 50cc. Já esqueci como se anda de bicicleta, não sei dirigir, acho muito chique ver minha ir pra missa de moto. Na nossa conversa, pelo que pude entender, tem uma parte de missa que é de “intenção de missa”, na qual se pede – como numa intercessão por alguém, por algo de bom aconteça, pela memória de outrem falecido, enfim. Essa ‘encomenda’ a pessoa faz durante a semana, na secretaria da paróquia ou igreja. Algumas igrejas se cobra uma pequena taxa. Na paróquia da minha vizinha a taxa é de R$ 5,00. Minha vizinha é dilmista. Dilmista, mas não é militante política, não tem filiação partidária ao PT ou a qualquer outro partido, embora goste da política e nos períodos eleitorais tome partido deste ou daquele candidato, e pronto. Pois bem, diante dos acirramentos dos ânimos: a mídia atacando a presidenta Dilma de forma feroz, alguns momentos de forma covarde e totalmente sem escrúpulos, minha vizinha usou de sua arma para defendê-la. Foi até a paróquia e: – “Quero uma missa em intenção da ‘nossa querida presidenta Dilma Rousseff’”, me conta que foram essas as palavras. Quando ela falou ‘nossa querida presidenta Dilma Rousseff’, as senhoras duas senhoras que faziam os apontamentos, uma olhou para outra. Ela, minha vizinha, nem tchum. No domingo, porém, a coisa pegou. O celebrante, nesse momento, quando logo depois de dizer a frase, houve um murmúrio na assistência e o padre emendou um “é a nossa presidente não vai indo muito bem”. A vizinha esperou e ao final da missa acercou-se do padre é perguntou: “Padre, qual a Dilma que o Sr. conhece? A Dilma do meu bairro é uma e a Dilma da internet, dos ricos é outra. O sr. quer ir lá conhecer essa Dilma?”, perguntou enfática. Noutras e sucessivas missas, mesmo diante de eventuais murmúrios, o padre jamais voltou a criticar “a nossa querida presidenta Dilma Rousseff”. * João Bosquo, poeta, jornalista, licenciado em Letras pela UFMT, com livros publicados (“Abaixo-Assinado”, 1977, em parceria com Luiz Edson Fachin; “Sinais Antigos”, 1981, “Outros Poemas”, 1984 e “Sonho de Menino é Piraputanga no Anzol”, 2006) e a publicar (“Imitações de Soneto”), além de vizinho.

Edição EDIÇÃO 16963




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