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Cuiabá MT, Domingo, 21 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 14 de Junho de 2008, 13h:53

CD

A 'Maré' cheia de Adriana Calcanhotto

Flávia Guerra
Agência Estado
Quando apresentou "Maré" em Portugal, em maio, Adriana Calcanhotto deixou o Coliseu de Lisboa boquiaberto. Em pleno show, faltou luz e um mal-estar se instalou. Em vez de enfiar a viola no saco, Adriana remou com seu violão até a beira do palco e ali, sob uma parca iluminação de emergência, continuou seu show. Quem pagou (e ficou) para ver não se arrependeu. Em tempos em que pirotecnia é sinônimo de qualidade artística, a essência da voz, e do ofício, de Adriana é prova de que maré vai, maré vem, mas o sal que tempera sua criação permanece. E é esta essência que a ‘cantautora’ traz aos palcos brasileiros, depois de passar, por Portugal e Argentina. Primeiro trabalho ‘adulto’ de Adriana depois de "Partimpim", "Maré" também marca a volta à sua ‘trilogia das águas’ (que começou em 1998 com "Maritmo"). Em tons de azul ora celestes ora melancólicos, resgata a toada marítima por meio do olhar de autores como Antônio Cícero, Augusto de Campos, Caetano e Ferreira Goulart, Caymmi e o inesquecível Waly Salomão, para quem dedica o CD. "Não saberia explicar o que é dedicar 'Maré' a Waly. Sei apenas que trocaria tudo por um pouquinho mais dele por aqui." AGÊNCIA ESTADO - Bethânia diz ‘que dentro do mar tem rio’. Por teu mar de criação, quantos rios passaram no intervalo entre Maritmo e Maré? Onde foi dar este rio de inspiração, que trouxe o não tão solar "Cantada", o delicioso "Partimpim" e "Maré"? ADRIANA CALCANHOTTO - Muita coisa aconteceu nesses dez anos. A maior foi ler os ‘autores de mar’ e, para usar uma palavra óbvia, mergulhar nesse universo. Aconteceu paralelo ao Partimpim e a tudo o que fui inventando. E quanto mais gosto de ler esses autores, mais gosto de gostar. AE - Por que o mar? Já que é uma metáfora clássica da vida, qual sua relação de infância, fascínio, (des)harmonia com o ‘mar salgado’ da natureza? AC - Primeiro por isso mesmo. É uma metáfora da vida. Quando se está no mar, não se tem certeza de coisa alguma, exatamente como na vida. Minha relação com o mar é de contemplação, que não posso chamar de silenciosa, já que fiz dois álbuns a respeito, mas de fascínio. O mar é, para mim, altamente situante. Diante da imensidão fico pequenina, humaninha. Foi um dos mais fortes motivos para a decisão de viver no Rio, estar perto do mar. AE - Voltar ao mar, às cíclicas marés, é uma forma de fazer um balanço? AC - É de certa forma. Como é o segundo de uma trilogia, quer dizer que já não é o primeiro, que já não sou tão jovem, que algum tempo já escorreu e que começo a me despedir. Por isso o "Sem Saída", do Augusto de Campos, o "Sargaço Mar", do Caymmi...

Edição EDIÇÃO 16967




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