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ILUSTRADO
Sábado, 13 de Setembro de 2008, 10h:04

RESENHA

A fábula da luz

Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Com apenas uma semana de diferença, os dois diretores mais internacionais do cinema brasileiro estréiam seus novos filmes num mercado que tem sido refratário à produção nacional. Na semana passada, Walter Salles, co-dirigindo com Daniela Thomas, lançou "Linha de Passe", que fez no Brasil, mais exatamente em São Paulo, com produção da Videofilmes e recursos provenientes da Lei do Audiovisual. Na sexta-feira passada(12/09), Fernando Meirelles estreou "Ensaio sobre a Cegueira", e a coisa muda de figura. O filme adaptado do romance do Prêmio Nobel José Saramago é falado em inglês e foi proposto ao diretor de "Cidade de Deus" por um consórcio canadense/japonês. O mais curioso é que "Ensaio sobre a Cegueira" era justamente o filme que Meirelles queria fazer, no começo de sua carreira-solo. Ele tentou adquirir os direitos do livro, mas Saramago não quis saber de vendê-los. Num primeiro momento, o escritor português chegou a dizer que seu romance era infilmável e que transformá-lo em filme iria contra o próprio conceito do "Ensaio", porque o cinema, arte audiovisual, mostra e, portanto, mata a imaginação. Dez anos depois, "Ensaio sobre a Cegueira" abriu o Festival de Cannes deste ano e, na seqüência, Meirelles, cheio de apreensão, foi exibi-lo para o escritor. Saramago adorou e até as mudanças que Meirelles ainda queria fazer, para aprimorar seu filme, foram desestimuladas por ele. Saramago queria que Meirelles deixasse o filme como estava. Mas o cineasta não seguiu o conselho do autor e o filme que estreou em cem salas de todo o País apresenta diferenças consideráveis em relação à versão exibida em Cannes. Meirelles remixou o som, reduzindo as narrações do personagem interpretado por Danny Glover. Elas ficaram menos numerosas e mais fortes. O diretor também atenuou o radicalismo de certas experiências com que seu fotógrafo e parceiro, César Charlone, recriava na tela a cegueira branca - metafórica - do escritor. Outras pequenas modificações foram feitas e o filme que estréia é outro - melhor -, sem deixar de ser, na essência, o mesmo que dividiu a platéia de Cannes. Mesmo no maior festival de cinema do mundo, independentemente de gostar ou não de "Ensaio sobre a Cegueira", os críticos reconheceram o domínio de Meirelles sobre a carpintaria cinematográfica. Ele próprio admite que contar uma história não é mais problema, e tem currículo para provar que isso é verdade - "Cidade de Deus", "O Jardineiro Fiel" e "Ensaio", três adaptações de livros (de Paulo Lins, John Le Carré e Saramago). O prestígio internacional favoreceu pontos importantes. Se tivesse feito "Ensaio" quando o livro surgiu, Meirelles teria feito um filme brasileiro, falado em português, com recursos mais modestos. Não teria Julianne Moore nem Mark Ruffalo nem Danny Glover no elenco. Ruffalo, aliás, não era a primeira opção do diretor. Meirelles queria Sean Penn, que não aceitou. Foi melhor - Ruffalo trouxe para o personagem uma fragilidade que o enriquece.

Edição EDIÇÃO 16966




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