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Editoriais
Terça-feira, 03 de Março de 2009, 20h:58

Tribos violentas

O poder das gangues formadas por jovens da periferia de Cuiabá, ao que consta, tem sobrepujado o poder da Polícia. A guerra à violência urbana ainda é tímida, o que favorece à ação cada vez mais cruel de alguns rapazes, quem, bem a propósito, se aproveitam justamente da ausência do aparelho policial para ditar as suas próprias normas em ruas, becos e vielas da cidade. Esse triste diagnóstico não é novo, mas, infelizmente, foi necessário chegar à tragédia do último fim-de-semana, no bairro Dom Aquino, quando uma menina de apenas dois anos foi morta a tiros e quatro outras pessoas ficaram feridas. O crime ocorreu durante ato explícito de selvageria protagonizado por uma das muitas gangues que atuam em áreas desguarnecidas da cidade. Na verdade, o ápice de uma verdadeira selvageria já vinha se manifestando de forma regular em trocas de tiros, num duelo entre bandos rivais, cada qual a seu modo, tentando mostrar um poder de fogo, que, segundo informações, superaria, até mesmo, a da própria Polícia. Até então, não se tinha registro de assassinatos – o que, convenhamos, não tirou o risco da ação desses bandidos, que sabem muito bem se aproveitar do fato de o Poder Público ter-se descurado demais do problema. Como este Diário revelou em sua edição de ontem, a Polícia Civil identificou o suspeito de ter atirado e matado a pequena Ana Carolina Nunes de Lima Silva, 2, no sábado (28), durante tiroteio no bairro Dom Aquino. A bala que atingiu o peito da menina partiu de uma pistola utilizada por Adilson Matheus Pereira de Oliveira, 19, conhecido nos meios policiais e criminosos como Nenê. Levantamentos da própria Polícia, de outro lado, revelam que Nenê tem um pedido de prisão preventiva em aberto desde 2008, pelos crimes de tentativa e homicídio. Ele e outros três homens suspeitos de participarem do crime estão foragidos. Relatos de moradores dão conta de que o mesmo Nenê já teria matado pelo menos quatro pessoas no bairro. E, no entanto, continua impune, livre, infernizando a vida das pessoas de bem, como xerife de ruas onde as normas nascem e florescem nas muitas bocas-de-fumo que proliferam na periferia da Capital mato-grossense. Muitos dos integrantes de gangues são conhecidos como soldados do tráfico. Uma fonte do jornal informa que a Secretaria de Segurança Pública tem pleno conhecimento da existência dessas gangues na periferia de Cuiabá. O “mapa do crime”, em verdade, teria sido elaborado em gestões anteriores. Estranhamente, a Polícia não age no que seria uma forma eficaz para prevenir tragédias como a que vitimou a pequena Ana Carolina, no Dom Aquino. Outros bairros da periferia – e alguns até mesmo localizados na área central de Cuiabá – sofrem com esse problema há anos. Para se ter uma idéia, no caso específico do bairro Dom Aquino, a Polícia identificou pelo menos três quadrilhas: Aldeia, Brejinho e Morro do Tambor. “Estamos cansados de tanta violência. Aqui não tem hora para matar. É de manhã, de tarde, de noite, de madrugada”, reclamou uma estudante de 21 anos, grávida de sete meses. Em princípio, a impressão poderia ser a de que a tendência gregária natural dos jovens fosse levada ao paroxismo da violência e da intolerância nesses bairros afastados. Alegar-se-ia, ainda, suposta crise de identidade, numa faixa de renda em que o desemprego é maior, em que a escolaridade e até a perspectiva de encontrar trabalho são menores. A verdade é que, pela idade dos bandidos que agem no Dom Aquino – como, de resto, em outros pontos da periferia – se tratam de criminosos adultos e de altíssima periculosidade. Os sintomas do que ocorreu no bairro Dom Aquino revelam que a degradação urbana é geral. Se não sabe, a Polícia está lidando com terroristas. A violência dessas tribos é um claro desafio às autoridades da Segurança Pública. Já é hora de administrar com seriedade uma crise que é séria. A violência dessas tribos é um claro desafio às autoridades

Edição EDIÇÃO 16967




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