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Editoriais
Sexta-feira, 08 de Agosto de 2008, 20h:28

O mundo em Pequim

O espetáculo que a China transformou na maior festa de abertura da história dos Jogos Olímpicos é uma homenagem justificada aos atletas que se prepararam para representar seus países em 40 diferentes modalidades. Ainda assim, a festa de congraçamento do atletismo não pode ser dissociada do contexto de um país milenar que lutou para sediar a 29ª edição da era moderna disposto a aproveitar a oportunidade para exibir os megaavanços econômicos das últimas três décadas. Antes da abertura oficial, o acompanhamento das primeiras competições serviu para ratificar esse motivo de orgulho dos chineses. Mesmo com um esforço de última hora para parecer avançada, porém, a China vem sendo percebida como um país autoritário e pouco preocupado com os efeitos colaterais dessa expansão desenfreada, que o espírito dos Jogos poderia ajudar a reverter. Primeiro país totalitário a sediar as Olimpíadas desde os boicotados Jogos de Moscou em 1980, a China escolheu o slogan Um mundo, um sonho para reverter a imagem externa de expansão econômica com efeitos de pesadelo para a democracia. O esforço exigiu investimentos de US$ 40 bilhões, que foram aplicados na construção e reformas de estádios, mas também na suspensão do funcionamento ou mesmo na transferência de fábricas altamente poluidoras e no recolhimento de milhões de veículos fumacentos das ruas de Pequim. Ao mesmo tempo, o país comprometeu-se publicamente a afrouxar alguns controles sobre a liberdade de imprensa e de manifestação. Apesar disso, os elevados níveis de poluição chocam os atletas e o público das competições. A censura resiste até na internet e eventuais manifestantes a favor de causas como a de Liberdade para o Tibete são simplesmente presos e deportados. É o tipo de situação que não pode ser aceita num mundo globalizado, onde expansão econômica, regimes democráticos e liberdade de expressão precisam andar cada vez mais juntos. Evidentemente, o mundo dos esportes não se presta para politização, pois é sempre lamentável quando a atuação dos atletas fica em segundo plano. Ainda assim, é impossível dissociar os Jogos Olímpicos de uma China que cresce sem medir as conseqüências. Constantemente apontado como parâmetro para o Brasil, o país-sede das competições de 2008 não pode ser visto como inspirador apenas sob o ponto de vista econômico. O país serve de exemplo também em aspectos como a valorização dos esportes e a crença de que o atletismo é uma saudável forma de superação e de valorização da auto-estima. Na abertura oficial, por exemplo, os 277 atletas brasileiros estarão sendo prestigiados hoje em Pequim com a presença do próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Nem isso, porém, atenua o fato de que o resultado nas 32 modalidades a serem disputadas por brasileiros dependerá mais do esforço próprio de atletas abnegados do que de uma política consistente e continuada de apoio aos esportes de maneira geral. E isso é inconcebível para um país que, assim como a China, quer ser reconhecido como importante no cenário internacional. “Os elevados níveis de poluição chocam os atletas e o público das competições”

Edição EDIÇÃO 16966




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