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Editoriais
Sábado, 03 de Dezembro de 2011, 11h:52

Nove anos depois

Cuiabá, noite da quarta-feira 4 de dezembro de 2002. A Polícia Federal ocupa os acessos ao Boa Esperança e monitora a mansão mais conhecida daquele bairro. O cerco é mantido às 6h do dia seguinte e um grupo de policiais invade a moradia com mandados de busca e apreensão e de prisão expedidos pelo juiz federal Julier Sebastião contra o proprietário, João Arcanjo Ribeiro e outros. Estava em curso a operação Arca de Noé. Homem poderoso em Mato Grosso, Arcanjo atendia pelo título de Comendador – graças a uma outorga recebida da Câmara Municipal de Cuiabá. Temido pela população e permanentemente sob forte esquema de segurança que contava com muitos policiais militares da ativa e reserva, era uma espécie de figura acima da lei. Mesmo temido Arcanjo não demonstrava sinais de truculência, conversava manso e pausadamente nos eventos sociais e políticos que frequentava. Integrado ao grupo dos influentes mato-grossenses, o Comendador tinha inclusive assessor de imprensa e sua foto ocupava as colunas sociais e seus vídeos eram constantes nos programas das televisões. O Comendador explorava o jogo do bicho sob a marca Colibri, que mantinha transmissão das extrações ao vivo no rádio. Essa atividade atravessou quase duas décadas, era regionalmente monopolizada por ele e os cambistas vendiam pules inclusive nos fóruns e delegacias. Também era dono da rede Cassino Estância 21, de hotelaria, fazendas e factorings e mantinha outras atividades. O poderio do Comendador estava a um passo da criação do Estado paralelo e autoridades decidiram que tal situação não poderia continuar. O cerco a ele se fechou em 30 de setembro de 2002, com o assassinato do empresário Sávio Brandão, que era dono do jornal Folha do Estado. À época, nos bastidores se atribuía a ele a autoria intelectual do crime. Com a execução de Sávio Brandão a imprensa nacional botou o Comendador no epicentro da violência em Mato Grosso. O governador Rogério Salles foi ao ministro da Justiça cobrar providências. Rogério disse ao anfitrião que estava num beco sem saída: ou a Polícia Federal desmontava o império do crime ou ele entregaria a chave do Palácio Paiaguás. Imediatamente após a audiência do governador em Brasília para tratar do caso a Procuradoria Geral da República criou o mecanismo necessário à ação policial, por meio de procedimentos de autoria do procurador José Pedro Taques. Avisado por alguém o Comendador saiu de casa antes da chegada dos policiais e em 10 de abril do ano seguinte foi preso no Uruguai. A Colibri e Estância 21 foram fechadas. Contas bancárias foram bloqueadas e muitos bens, transferidos ao governo. Condenado por vários crimes o Comendador cumpre pena em Campo Grande (MS). Nove anos depois da operação a criminalidade continua, o jogo do bicho desafia, cassinos funcionam e as factorings operam. Tudo sinaliza que faltam prisões para completar a Arca de Noé. Tudo sinaliza que faltam prisões para completar a Arca de Noé

Edição EDIÇÃO 16962




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