Editoriais
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011, 20h:04
A
A
Hanseníase
Com várias citações bíblicas no Velho e Novo Testamento quando era chamada de lepra - a hanseníase atravessa milênios carregando estigmatizante pecha que precisa ser eliminada em respeito ao ser humano e em nome da relação social que não tem mais espaço para esse tipo de preconceito. Em Mato Grosso a hanseníase é um dos grandes problemas da área de saúde. Essa condição se dimensiona por vários indicadores e, dentre eles, o fato de o Estado ser o que mais detecta casos dessa doença, sendo que em 2009 foram detectados 2.686 novos casos.Doença curável e que deixa de ser transmissível ao longo do tratamento do portador, a hanseníase tem medicamento e assistência assegurados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas mesmo assim há relutância por parte de hansenianos. Para reverter essa situação as autoridades do setor precisam desenvolver campanhas de conscientização sobre a importância do tratamento e para derrubar a barreira do preconceito. Oficialmente o coeficiente de cura de pacientes portadores de hanseníase em Mato Grosso é de 82,6%, mas esse índice certamente é mascarado autoridades fogem desse tema por alguns fatores, porque a base quantitativa dos portadores não traduz a realidade, uma vez que é comum a busca por tratamento fora do Estado, com falsa declaração domiciliar, como forma preventiva do inevitável estigma social da vizinhança, companheiros de trabalho, colegas de escolas e do conjunto populacional como um todo. Numa visão ampliada da hanseníase, o Brasil não conseguiu zerar sua incidência, conforme planejamento a partir de compromisso com a Organização Mundial de Saúde. Em Mato Grosso o cenário é o mais grave do país e, lamentavelmente, não se pode pensar em erradicação nos próximos anos, a exemplo do que acontece nas regiões mais desenvolvidas do planeta. A hanseníase ainda tem perversa e demorada caminhada em comum com Mato Grosso. Por se tratar de doença de longa encubação (pode chegar a 15 anos) e pelos bolsões de miséria, a população mato-grossense ainda continuará por muito tempo exposta ao risco da contaminação. Essa doença que desafia governos está no centro dos debates sobre saúde pública, porque amanhã é o Dia Mundial de Combate à Hanseníase, que é data móvel celebrada no último domingo de janeiro. Tomara que essa data desperte a população para uma grande cruzada contra a estigmatização e a subnotificação dos casos de portadores. A população tem que rever a relação com o hanseniano. Além disso, é fundamental que o círculo familiar e social fique atento aos sinais que podem ser indicativos de contaminação sem que o portador tenha consciência de sua condição. Conscientizar a população mato-grossense contra o estigma e transformá-la em aliada leiga das autoridades da saúde pública na detecção de novos casos é o melhor caminho para a redução da prevalência dessa doença, o que no segundo passo se traduzirá em sua erradicação.