Editoriais
Sexta-feira, 23 de Março de 2012, 21h:46
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Chico, sempre Chico
Coalhada continua batendo um bolão. Roberval Taylor é a voz do rádio. Seo Popó ainda implica com o amigo de sempre. Professor Raimundo é fonte do saber. Painho permanece todo esquartejado. Aroldo é convictamente hetero. Bento Carneiro não perde a pompa de ser o vampiro brasileiro. Salomé de Passo Fundo alfineta o presidente Figueiredo. Nazareno insiste para que sua mulher fique calada. Enquanto estes e dezenas de outros personagens permanecerem no panteão do humorismo brasileiro, o cearense de Maranguape Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, o Chico Anysio, ou apenas Chico, que os criou e interpretou, viverá. O coração de Chico parou de bater ontem, depois de uma longa e dolorosa batalha por ele travada por aquilo que mais amava e respeitava: a vida. Octogenário e com dificuldades para respirar, seus últimos dias foram de dor, que sua mente privilegiada seguramente não deixou que se transformassem em agonia. Chico foi iluminado enquanto humorista, pintor, compositor, autor, ator de cinema e televisão, e crítico dos desmandos políticos, da prepotência dos poderosos, da prevalência do dinheiro sobre a dignidade humana. Sua crítica era sempre embutida em seus personagens. Quem não se recorda do deputado Justo Veríssimo, aquele que não gostava de pobre e achava que os pobretões têm que morrer? Não é fácil definir se Chico Anysio nasceu para o humor ou se o humorismo nasceu com ele, porque os dois se fundiam e se confundiam sem que o ator jamais partisse para a vulgaridade ou o pastelão. Em palco, quer seja nos monólogos ou contracenando, ele era cavalheiro impecável. A vida e a trajetória deste ilustre homem é uma página que orgulha o brasileiro e deve encher de orgulho o Brasil. Seu legado é a maior de suas obras e precisa ser transmitido às novas gerações desta terra tão árida de moralidade na vida pública, situação esta por ele combatida na sutileza de seus personagens. Amanhã, o corpo de Chico será cremado no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, que o acolheu no início de carreira e lhe abriu as portas ao sucesso. Esta cerimônia teria mesmo que ser realizada no Rio, a cidade que tem a alma tão alegre quanto os momentos que ele deu aos brasileiros ao longo de seis décadas. O humorismo brasileiro durante muito tempo buscou inspiração em Chico. Seu adeus é duro golpe imposto pela prevalência da misteriosa morte sobre a fragilidade da vida. Sem ele o palco fica incompleto, mas torcendo para que seus seguidores um dia deixem de ser alunos e se tornem iguais ao mestre. O Brasil perde o contato físico com um de seus filhos mais brilhantes e inteligentes. Mas, nem por isso deve se entristecer. Ao contrário, tem razão de sobra para comemorar o fato de Chico ter nascido no seio de seu povo, porque somente perde um homem com seu quilate o país que materializa corpo para seu espírito e o devolve ao infinito da espiritualidade. Não é fácil definir se Chico Anysio nasceu para o humor ou se o humorismo nasceu com ele