ECONOMIA
Sábado, 19 de Junho de 2010, 12h:20
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SOJA
Menos R$ 62 milhões
Perda de cerca de R$ 10 na margem de lucro sobre cada hectare cultivado no Estado implica, a grosso modo, numa considerável quantia a menos em circulação
MARCONDES MACIEL
Da Reportagem
No ano em que os produtores mato-grossenses protagonizam a maior safra da história cerca de 29 milhões de toneladas de grãos e fibras o Estado colhe o pior resultado em termos de lucratividade. Pelos números apontados, a perda de margem de lucro sobre cada hectare cultivado de soja nesta safra, em comparação com a de 2009, será de R$ 10. Ao final do ano, isso vai tirar da economia local R$ 62 milhões. O custo de produção na safra 09/10 foi de R$ 1,49 mil por hectare e, a rentabilidade, 9,37%. Mas o histórico das últimas safras mostra que o rendimento ficou entre 10% e 15%. O lucro, que na safra passada chegou a R$ 150 por hectare, recuou para R$ 140 na safra 09/10. Para os produtores, a diferença R$ 10/hectare pode influenciar no comportamento da próxima safra e representa muito num universo de mais de 6,2 milhões de hectares cultivados no Estado com o grão. Segundo o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja), Glauber Silveira, a renda agrícola de 2010 será uma das piores dos últimos anos. Mais: com os baixos preços da soja no mercado internacional e câmbio desvalorizado em relação ao real, os sojicultores mato-grossenses ficam a menos de 90 dias do início do novo ciclo cercados de projeções negativas por conta da elevação dos estoques mundiais, com recordes de produção na América do Sul e nos Estados Unidos. A análise está baseada nos números do Valor Bruto da Produção (VBP) para a sojicultura carro-chefe do agronegócio estadual -, divulgados pelo Ministério da Agricultura. O VBP, que valia pouco mais de R$ 12 bilhões em 2009, encolheu para R$ 9,73 milhões queda de 18,92% - apesar do aumento de 8% sobre o volume físico (em toneladas) de uma temporada para a outra. A preocupação com a queda da renda agrícola levou o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) a elaborar cenários de rentabilidade com base nos custos médios, com três diferentes níveis de comercialização e produtividade, chegando assim em nove cenários. Em todos os cenários desenhados, os preços representam a principal discrepância no nível de renda do produtor. Além disso, a capacidade de pagamento da safra 09/10 fica ainda mais comprometida para fazer frente às parcelas do endividamento que estão vencendo este ano. O diretor de Relações Institucionais da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Famato), Rogério Romanini, diz que melhorar a renda do produtor é o principal desafio da nova diretoria da entidade, empossada na última segunda-feira. CÂMBIO Na avaliação do diretor administrativo da Aprosoja/MT, Carlos Fávaro, a principal causa da queda da renda agrícola é a defasagem cambial, atrelada à falta de uma logística adequada para transportar a produção. Sem uma logística adequada perdemos em competitividade. Segundo ele, a desvalorização cambial vem tirando a renda do produtor. Se o sojicultor vendia a saca de soja a US$ 21, com câmbio de R$ 2,30, obtinha um lucro de R$ 48,30. Hoje, vendendo pelos mesmos US$ 21 e com câmbio de R$ 1,75, o produtor não consegue obter mais do que R$ 36,75 pela saca da soja, com perda de quase 24% por causa da defasagem cambial. O aumento da safra, lembra Fávaro, não significa produtividade maior. O que tivemos nesta safra foi exatamente uma queda da produtividade, que influenciou também na renda agrícola. Ele explica que ocorreu uma migração da área de algodão e arroz para soja, daí o aumento da produção. Mas os custos ficaram muito próximos da renda obtida com a venda da produção e o produtor ficou praticamente sem margem nesta safra. Entre as causas da queda da produtividade, Favaro aponta fatores climáticos e a presença mais forte da ferrugem asiática da soja nas lavouras. Tudo indica que 2010 será um ano extremamente difícil, pois não existe renda sequer para pagar as parcelas do endividamento. O setor precisa de medidas de governo com urgência, como a prorrogação das parcelas e a readequação do saldo das dívidas à capacidade de pagamento do produtor com alongamento dos prazos e taxas de juros compatíveis. (Veja mais na página C4)