ECONOMIA
Sábado, 22 de Novembro de 2008, 11h:56
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CRISE NO CAMPO
Alerta foi ignorado
Bolha agrícola se arrastou por quatro safras e estoura neste ciclo. Impacto da convulsão põe atividade em xeque
MARCONDES MACIEL
Da Reportagem
Não foi por falta de aviso. Quatro anos após o alerta dos produtores, a bolha do subprime agrícola rompeu e empurrou a agricultura mato-grossense para a pior crise da sua história. A leitura deste cenário pôde ser tirada na semana passada, quando bancos ligados às grandes montadoras agrícolas CNH (Case/New Holland) e DLL - começaram a apreender, nas fazendas, plantadeiras, tratores, pulverizadores e colheitadeiras dos produtores como garantia de pagamento. O banco da John Deere não fez apreensões ainda, mas está incluindo todos os produtores inadimplentes em serviços de proteção ao crédito como a Serasa. As apreensões estão ocorrendo devido ao não pagamento da parcela da dívida vencida no último dia 15 de outubro. O acúmulo dos passivos do segmento pode ser comparado às hipotecas podres (subprime) que estouraram a crise mundial, inicialmente nos Estados Unidos. Já a bolha no agronegócio estadual teve início na safra 04/05 quando houve desequilíbrio entre custos de produção e cotação dos grãos, principalmente da soja, da qual, o Estado é o maior produtor nacional. Naquela ocasião, o dólar valorizado corrigiu o preço dos insumos agrícolas e na hora de negociar a safra, a desvalorização imperou sobre cotações e até mesmo sobre o câmbio. De lá pra cá, o subprime rural, se avolumou safra após safra, vindo a estourar agora. Só este ano, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), o montante das dívidas dos produtores a serem liquidadas junto aos bancos passa de R$ 1 bilhão, para uma dívida total estimada em cerca de R$ 10 bilhões. Por enquanto, os nomes dos produtores executados estão sendo mantidos em sigilo. Se o nome aparecer, ele poderá quebrar no dia seguinte porque não conseguirá mais financiamentos, afirma o diretor administrativo da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja) e presidente da Comissão de Endividamento Rural de Mato Grosso, Ricardo Tomczyk. Na região sul do Estado, vários agricultores estão sendo surpreendidos com ordem de apreensão de máquinas e equipamentos agrícolas nas fazendas. Somente no cartório de Rondonópolis (210 quilômetros ao sul de Cuiabá), mais de 70 notificações extrajudiciais já haviam sido protocoladas pelos bancos e 16 apreensões de máquinas já estavam confirmadas. A investida dos bancos também alcança agricultores de Alto Garças (sul), Barra do Garças (leste), Diamantino (médio norte), Sorriso (norte) e Campo Novo (noroeste), com o número de execuções podendo ultrapassar a 40. Dezenas de produtores já foram notificados pelos bancos, que não estão respeitando a resolução 3637/CMN, que dá prazo até 12 de dezembro para o produtor protocolar o pedido de negociação da dívida, denuncia o presidente do Sindicato Rural de Sinop (503 quilômetros ao norte de Cuiabá), Antônio Galvan. De norte a sul do Estado estamos sofrendo o ataque dos bancos. É uma insensatez, não poderia ocorrer num pior momento, justamente agora que as máquinas estão em uso total. Alguém poderia explicar como vamos fazer os tratos culturais e colher o que foi plantado este ano?, questiona o presidente da Comissão de Endividamento Agrícola do Estado, Ricardo Tomczyk. MAGGI - Em entrevista esta semana à Agência Folha, o governador Blairo Maggi (PR) admitiu que a agricultura brasileira está diante de uma das mais graves crises da história. E, segundo ele, com conseqüências imprevisíveis para o agronegócio, setor que nos últimos anos tem sustentado a política econômica do governo federal e estadual. Ainda de acordo com Maggi, a diferença do momento atual em relação às outras crises do setor está na dificuldade de obtenção de crédito, com as tradings ou com as instituições financeiras nacionais e internacionais. "O problema é que o fluxo de caixa, que antes era obtido com o crédito, praticamente secou". Segundo levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Famato), os produtores estão sem perspectivas de crédito para a próxima safra e 70% dos agricultores deixaram de pagar seus débitos na parcela de R$ 1 bilhão do financiamento de máquinas agrícolas que venceu em 15 de outubro. Não temos qualquer perspectiva. A situação realmente é dramática e não sabemos o que irá acontecer na frente, diz o presidente da entidade, Rui Ottoni Prado. Para ele, os bancos que estão executando os produtores estão com uma política totalmente equivocada. É preciso uma intervenção do governo para impedir que os bancos se aproveitem deste momento e afundem ainda mais a agricultura no caos, alertou.