Colunistas
Sábado, 24 de Abril de 2010, 13h:24
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A CIDADE VIVE
Consertar carros foi sua missão
Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
Ele foi, com certeza, o mais famoso mecânico de automóvel de Cuiabá. No seu tempo era o mais completo, atencioso, competente e educado de toda a categoria. E por tudo isso exerceu, durante 26 anos, o cargo de Mestre Geral da Agência Ford, de Pedro Biancardini S.A., os outros 04 de um total 30 foi apenas mecânico. Filho de Antônio Martins Duarte e de D. Almerinda de Arruda Duarte (D. Mely) nascido no dia 31 de dezembro de 1926, teve 05 irmãos: Maria Eunice, Edir, Álvaro, Maria José e Augusto Antônio Duarte, o único vivo. Mestre Alberto, como é conhecido em toda a cidade de Cuiabá, mora há mais de 60 anos no mesmo endereço: Rua Joaquim Murtinho nº 1394, fundos do antigo DNER, no bairro do Porto. Antigamente, antes da construção do prédio do DNER, hoje DENIT, a sua casa recebia o nº 250 da Praça Dr. Carvalho. Havia um campinho nos fundos do quintal do Sr. Wenceslau Viégas de Pinho no qual os jovens jogavam bola e do outro lado existiam as antigas Enfermaria e a Estrebaria do Exército, essa a constituição da Praça Carvalho. Casado com D. Valdecy Vasconcelos Duarte, o casal possui três filhos: Valdete, Eliane e Gonçalo, 06 netos e 01 bisneto. Em bom estado de saúde, mas fora de ação, sem forças para apertar parafusos - como ele diz - ainda hoje, alguns colegas vêm à sua procura trocar opinião sobre questões intrincadas da mecânica de automóvel. E ele participa, com entusiasmo, desses debates. DC Ilustrado - Conte-nos do seu início de vida. MESTRE ALBERTO - Sou flechano, já que nasci na famosa Usina das Flechas, no rio abaixo, hoje município de Barão de Melgaço. Meu pai era o apontador geral daquela prospera usina de propriedade do Sr. João Pedro de Arruda. Com o casamento da minha irmã mais velha e a consequente mudança dela para Cuiabá a família inteira veio para a Capital. Aqui chegamos em janeiro de 1943 viajando na lancha Independência do Sr. Auriste Salies. Ficamos todos hospedados na chácara do saudoso Sr. Antônio de Barros até que alugássemos a casa que depois comprei da Praça Dr. Carvalho do Major José Silvério de Magalhães. DC Ilustrado - E os empregos Mestre. MESTRE ALBERTO - O 1º emprego de minha vida foi com o Sr. Nino Ricci, na área de consertos de máquina de costura, cromação e oxidação de revolveres. Depois trabalhei na Tornearia do Sr. Vitor Morosovisky e na firma Ermete Ricci. Em julho de 1944 entrei na firma Pedro Biancardini - agência Ford - como ajudante de mecânico. No ano de 1947 servi o Exército e dei baixa com a patente de 3º sargento da reserva, voltando para a firma Pedro Biancardini de onde não sai mais até o encerramento de suas atividades. De junho a dezembro de 1948 fiquei em São Paulo, na fábrica da Ford, na Rua Solon, no bairro Bom Retiro, especializando-me em mecânica em geral. DC Ilustrado - E como era essa especialização? MESTRE ALBERTO - Difícil. Cada semana a gente ficava em uma seção acompanhando todas as fases de montagem dos diversos tipos de carros. O mecânico conhecia o carro por inteiro, completamente. Retornando a Cuiabá assumi a Chefia da Oficina e surgiu então esta figura cansada e pequenina que o povo, carinhosamente, chama até hoje Mestre Alberto. DC Ilustrado - Havia treinamentos? MESTRE ALBERTO - Sim, toda e qualquer modificação ou aperfeiçoamento que se fazia na linha de carros fabricados pela Ford eu viajava para São Paulo a fim de me atualizar. Foi assim até 1974 quando a firma Pedro Biancardini perdeu a concessão da Ford. DC Ilustrado - Quais mecânicos eram famosos em Cuiabá? MESTRE ALBERTO - Preferia não citar nomes para não ser traído pela memória. Mas, pedindo desculpas antecipadas a eventuais omissões, nos meus tempos de Mestre requisitado tinha as concorrências do Vidão, Luiz Gonzaga (Lulu) e Hélio Careca. Mas éramos amigos. Não tinha essa de um querer aparecer mais que o outro. Sobretudo havia respeito entre os profissionais da mecânica de automóvel. DC Ilustrado - Algum auxiliar ficou famoso? MESTRE ALBERTO - Meus excelentes auxiliares diretos eram o Clóvis Marques de Camargo e o Wilson Godoy. Acho que os dois continuam trabalhando na profissão. Aliás, hoje em dia eu levo os meus carros (duas belinas: uma ano 70 e outra 87) para o Clóvis, na Rua Coronel Neto, esquina com a Senador Metelo, consertá-los. Ainda sei alguma coisa - brinca o Mestre - mas não tenho força na mão para apertar parafusos. E comigo ou o serviço é completo e bem feito ou não faço. DC Ilustrado - Hoje é mais fácil trabalhar que antigamente? MESTRE ALBERTO - Por estes tempos modernos tudo tem ficado a um só tempo mais fácil e complicado. Assim, por exemplo, é fácil estabelecer-se com o comércio de serviços, mas é complicado exercer a atividade. Se não houver acerto prévio não se deve iniciar o serviço. Tudo o que é combinado não é caro; mas se o serviço for realizado sem autorização do interessado a encrenca é certa. Atualmente todo mundo reivindica seus direitos, mas não são poucos aqueles que desprezam seus deveres. DC Ilustrado - E o Senhor como fazia? MESTRE ALBERTO - Depois que me aposentei resolvi abrir a minha própria oficina. Até algumas repartições faziam parte de minha clientela: Tribunal de Contas, Codemat, Cohab, etc.. Faltava-me espaço para crescer e mão de obra para ajudar-me. Sempre fiz distinção entre consertar o carro e trocar peças. Só o mecânico conserta; agora, trocar peça, nem sempre exige a presença do profissional. O carro só pode ser entregue a terceiro mediante expressa autorização do dono. As peças trocadas devem obrigatoriamente ser entregues ao proprietário do veículo. Só se pode fazer o conserto mediante aprovação do orçamento, etc. Dei-me bem com os critérios que adotei, mas falta de espaço, de profissionais do meu agrado e o cansaço que foi tomando conta desta carcaça vergada pelos anos, obrigaram-me a pendurar as chuteiras. Hoje mal e mal toco o Estacionamento que traz o nome do entrevistado. DC Ilustrado - Qual era o carro mais incrementado da Ford? MESTRE ALBERTO - Era o galaxie que possuía três versões sendo top de linha o Landau. Era bonito um galaxie desfilando pelas nossas pouco movimentadas ruas de antigamente. DC Ilustrado - E quais eram os felizardos proprietários desses galaxies? MESTRE ALBERTO - Olha você me deixa, como se diz, numa saia justa com essa pergunta. É que, já velho, não consigo lembrar-me de todos. Recordo-me de alguns, como os médicos Nicola Kalix, Farid Seror, Clóvis Pitaluga de Moura, o dentista Nilson Constantino, o advogado Djalma Metelo, o empresário Hugo Blanco... DC Ilustrado - Qual é a sua opinião sobre as agências de automóveis de atualmente? MESTRE ALBERTO - Acho todas muito bem estruturadas e com pessoal qualificado, todos com treinamento nas diversas fábricas. Mas sou forçado a fazer uma ressalva: é com relação às agências de carros importados. Segundo estou informado algumas dessas agências vendem os carros e terceirizam o serviço de oficina, principalmente a parte de pintura. Aparentemente isso não acarretaria, em tese, nenhum problema. Acontece - e ai está a questão - que as revendas dos carros importados não possuem as peças para que os serviços de lanternagem e pintura sejam feitos. E o comprador, no meu entender, sai no prejuízo. Todo o proprietário de carro importado que tiver o veículo envolvido numa colisão ficará mais de mês com o carro batido por falta de peça de reposição. Ora, para uma Capital como a nossa, isso não fica bem. Pelo menos portas, paralamas, para choques, essas revendas deveriam ter em estoque. Quem come o filé, que é a venda, tem o dever de roer o osso, que é dar assistência ao comprador. Não é verdade? Acho mesmo que deveriam fazer uma campanha: Só compre carro importado com garantia de assistência técnica. Quem não tem condições para se estabelecer que não se estabeleça, conforme ensina antiga lei de mercado. DC Ilustrado - E o nosso trânsito Mestre Alberto. MESTRE ALBERTO - Nós não temos outra alternativa senão a implantação do rodízio de placas. Já está completamente saturado o trânsito de Cuiabá e as nossas ruas estreitas não oferecem meios para adequações. Ou fazemos o rodízio ou vamos andar a pé ou de coletivo. Há poucos anos, em alguns horários, algumas ruas apresentavam congestionamentos e engarrafamentos. Hoje, todas as ruas em todos os horários, estão com algum tipo de dificuldade de fluição do trânsito. Isso acaba com o sistema nervoso de qualquer um, por mais paciente que seja ou queira ser. Já estamos vendo neuroticozinhos descendo do carro para brigar porque o de trás buzinou. Ora, se buzina já é provocação, é porque o stress passou a ser coletivo. DC Ilustrado - O Sr. construiu a mais incrementada fubica de Cuiabá? MESTRE ALBERTO - De fato, fiz um trabalho de paciência. Peguei um Ford 29, (fubiquinha) lavei parafuso por parafuso, peça por peça e fui montando um carro do meu gosto. Mandei cromar os para choques e o painel em São Paulo, os pneus eram com faixa branca, a direção era de F-100, a buzina era a vácuo e depois de tudo acabado passei a fazer com o carro o maior sucesso pelas ruas de Cuiabá. Confesso, modéstia a parte, que essa fubica era objeto de desejo de quase todos os amantes do automóvel. De tanto me oferecerem compra, acabei vendendo-a para o Dr. Atahide Monteiro da Silva, na época Procurador Geral de Justiça e ele continuou fazendo o maior sucesso com o carro. DC Ilustrado - Mas ainda hoje o Sr. tem duas belinas muito cobiçadas, não? MESTRE ALBERTO - A minha Belina bege é nova, é do ano de 1987. A outra, vermelhinha, é de 1970. Ambas estão em perfeitas condições de uso e funcionamento. Até para viajar estão revisadas. É só abastecê-las e colocar os pés na estrada. Ou melhor, o carro. DC Ilustrado - E o Sr. venderia uma dessas belinas? MESTRE ALBERTO - Acho que agora, a esta altura da vida, seria capaz de vender. Aparecendo comprador acho que vai dar negócio na vermelinha que, aliás, é a mais cobiçada. DC Ilustrado - Qual foi a sua grande tristeza? MESTRE ALBERTO - Trabalhei na firma Pedro Biancardini desde 1944, interrompendo a atividade apenas para servir o Exército que era obrigado por lei. Praticamente minha vida se confundiu com a vida e a história da agência Ford. Nas ruas o povo já se referia ao Mestre Alberto da Ford. Acontece que todas as indenizações as quais tinha direito foram transformadas em quotas da empresa. Fiquei com considerável participação no capital social. Mas eu nunca frequentei a alta sociedade. Era um operário que, inadvertidamente, via suas indenizações serem transformadas em quotas a cada mudança da empresa. No final de tudo a firma fechou, parece-me que o Banco do Brasil ficou com o prédio e eu não fiquei nem com minhas quotas e muito menos com minhas indenizações. Para quem sempre chegou junto e lutou como eu dói muito esse triste final. Mas... não se pode chorar o leite derramado. Eu estou vivo e Deus está comigo. DC Ilustrado - O Sr. demorou para casar Mestre? MESTRE ALBERTO - Mais ou menos. Acontece que os irmãos mais velhos foram tocar as vidas deles, meu pai foi trabalhar fora, num seringal, e eu fiquei como arrimo da família. Precisava fazer formar os meus irmãos mais novos Maria e Augusto para, somente depois disso, assumir compromisso de outra família. Formei-os, graças a Deus e o papai também retornou a Cuiabá, arranjou emprego e, assim, pude casar. Mas veja bem: casei e criei os meus filhos. Quer dizer que o Chefão lá de cima me deu saúde e força para chegar até aqui. DC Ilustrado - Mas o Sr. está forte Mestre. MESTRE ALBERTO - Frequento tudo da melhor idade. Faço hidroginástica, caminhadas, viajo com eles e danço porque é uma boa distração. Recentemente um filho levou-me a Portugal e França e posso dizer que já pisei na Europa. A vontade agora é de fazer uma viagem de navio. Havendo oportunidade, tô nessa. Esta é a primeira vez na minha vida que dou uma entrevista. Nem sei se me sai bem. Mas que estou vivendo na cidade que vive dos que vivem e viveram nela isso estou. E peço a Deus mais alguns anos de vida para ver minha querida Cuiabá mais bonita e menos violenta. Obrigado por terem lembrado de mim. CONCLUSÃO O Mestre Alberto sempre foi portenho, ou seja, sempre morou e brigou pelo bairro do Porto. Até a esposa procurou no bairro, casando-se com uma das filhas do Seo Moisés, comerciante tradicional da esquina das Ruas Joaquim Murtinho com Benedito Leite. Possui aproximadamente cinquenta afilhados, vai à missa todos os domingos e dias santificados, comparece com a sua solidariedade em todos os velórios e enterros dos amigos e conhecidos e só tem um defeito: a calma. Se alguém viu o Mestre Alberto zangado ou brigando confundiu-se. Não era ele!