CIDADES
Segunda-feira, 02 de Julho de 2012, 22h:11
A
A
PACIENTE X SERVIDOR
Uma relação conflitante
A cada semana, ocorrem entre dois e três casos de agressão e depredação contra unidades de saúde, sobretudo as policlínicas
JOANICE DE DEUS
Da Reportagem
Em média, de dois a três casos de agressões verbais, físicas ou depredação do patrimônio público ocorrem semanalmente nas unidades de saúde, especialmente nas policlínicas, em Cuiabá. De um lado, funcionários que se sentem ameaçados. Do outro, usuários que reclamam do mau atendimento e do descaso por parte dos gestores públicos. O governo gasta milhões em pedaços de concreto para realizar a Copa enquanto a Saúde está à míngua. Agressões não se justificam, mas é revoltante a forma como a gente é tratado, criticou o zelador Enildo Bispo Santiago, 32 anos, que ontem buscava atendimento para filha de pouco mais de um ano na Policlínica do Planalto. Enildo Santiago conta que estava em peregrinação pelas unidades da Capital desde última sexta-feira. Primeiro foi para a filha mais velha, de 3 anos, que estava com vômito. Estive aqui na sexta-feira à noite e estava lotado. Então, fui para o Verdão. Lá, geralmente é melhor. (Ontem) Hoje, tive que retornar porque a outra filha adoeceu. Até que está indo rápido porque, no geral, a saúde pública é uma calamidade, avaliou. Na mesma noite, o motorista Antônio Jorge de Souza, 39 anos, levou o filho de 12 anos até a unidade, mas ficou transtornado quando lhe disseram que teriam que esperar por que só havia um médico de plantão, que estava atendendo um homem baleado. Morador do bairro Doutor Fábio, Antônio Jorge ficou transtornado e começou a gritar e a quebrar a porta do vidro do posto. À polícia, ele relatou que o filho levou uma pedrada no olho e gritava de dor. Argumentou que outras crianças estavam sendo passadas na frente e, que funcionários, disseram que casos com quadro febril eram mais graves, por isso eram prioridade. Geralmente, são os trabalhadores que atuam na linha de frente, ou seja, recepcionistas ou atendentes, que estão na mira dos pacientes enfurecidos. Mas médicos e enfermeiros também. Sempre tem um caso de desacato. Quando acontece, a gente procura se afastar, comentou uma funcionária do Planalto, que não quis se identificar. Para ela, ajudaria se o balcão da recepção fosse mais alto ou o local fechado com apenas uma janela para o atendimento. Muitas vezes, o paciente já vem com outros problemas de casa ou já passou por outras unidades e não conseguiu atendimento. Ele chega alterado e não quer aguardar ser feita a classificação de risco, comentou a enfermeira Valdilene Maria da Silva, que trabalha na Policlínica do Coxipó. Lá, na última semana, alegando ter sido mal-atendido o desempregado Girceo Mognol, de 61 anos, se armou com um pedaço de concreto e danificou as janelas da farmácia. Detido, ele foi autuado em flagrante por dano ao patrimônio público. Sem condições de pagar a fiança de R$ 207, seria levado a uma unidade prisional da Grande Cuiabá. Girceo contou que, por volta das 17 horas, sentiu-se mal com fortes dores no estômago e foi procurar a Policlínica. Ao chegar na enfermaria, foi orientado a procurar a farmácia, onde não gostou do atendimento do funcionário. Então, ele se armou com um pedaço de concreto e arremessou contra a janela. Valdilene rebateu dizendo Girceo chegou querendo remédio para a dor, mas não apresentou receita médica. Nada justifica uma reação destas, acredita. Assim como Valdilene, outros colegas de trabalho já foram ameaçados. A gente entrega para Deus. Mas as pessoas precisam entender que procuramos dar o melhor atendimento, afirmou. A vendedora Jéssica Silva, 19 anos, também estava insatisfeita. Já vim aqui (ante)ontem à noite e não tinha clínico. Disseram até para ir para o pronto-socorro de Várzea Grande, mas fui para casa. Voltei e espero ser atendida, disse Jéssica, que sentia fortes dores pelo corpo enquanto aguardava na sala de espera da Policlínica do Coxipó. Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) argumentou que a Saúde no Estado e no Brasil está debilitada, inclusive o setor privado. Ponderou ainda que embora o usuário reclame da demora no atendimento, ele precisa entender que existe a necessidade de preencher ficha e passar pela classificação de risco. A assessoria informou ainda que a SMS já solicitou, por duas vezes, o policiamento ostensivo nas policlínicas para maior segurança dos funcionários, já que há vários casos de bandidos baleados que são atendidos nas unidades.