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CIDADES
Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011, 21h:01

ATESTADO COMPRADO

Policiais criminosos são beneficiários

Militares acusados de crimes bárbaros apresentam atestado de problemas psicológicos assinados por Ubiratã Barbalho e protelam apuração

ALECY ALVES
Da Reportagem
Dezenas de policiais militares que respondem a processos por crimes de grande repercussão, que chocaram a sociedade, permanecem nos quadros da PM recebendo salários por conta de licenças médicas concedidas pelo psiquiatra Ubiratan de Magalhães Barbalho. O médico foi gravado ofertando atestado médico em troca de dinheiro por autorização judicial. A denúncia é do corregedor-geral da PM, Joelson Geraldo Sampaio. Entre os nomes dos PMs citados, que até hoje não foram expulsos por causa de atestados supostamente vendidos pelo psiquiatra, estão do cabo Rodolfo Santa Filho, “Cabo Cona”, acusado de assassinato em processo que tramita há mais de quatro anos, e do soldado Márcio Roberto Monteiro e do cabo Paulo Cândido de Sousa, ambos flagrados e filmados em maio do ano passado quando cobravam propina para liberação de carro na barreira policial do trevo de Santo Antônio de Leverger. Também compõe a lista o soldado da Ronda Ostensiva Tática Armada (Rotam) Claudemir de Sousa Sales, acusado de matar a ex-amante, Ana Cristina Wommer, em agosto de 2010. A vítima estava grávida de oito meses. Já a expulsão do soldado Michel Lojor de Lima, acusado de estuprar várias mulheres na região do CPA, teve de ser protelada por um longo período também, conforme coronel Sampaio, por conta de licenças psiquiátricas. “É só um policial se envolver em algum ato ilícito que cabe pedido de exoneração que aparece no processo um atestado psiquiátrico do doutor Ubiratã”, declarou o corregedor. “Muitas vezes isso ocorre uma ou duas semanas após a abertura do inquérito, tornando morosa a tramitação”, completou. As licenças médicas não se limitariam às apurações criminosas. O comandante da PM, coronel Osmar Lino Farias, disse que há PMs que obtiveram atestado para fazer cursos de pós-graduação, monografia e até faculdade de Medicina. São licenças, conforme Sampaio e Farias, que se prolongam por um, dois e até quatro anos. Como exemplos, sem citar nomes, o comandante revelou dois casos. O primeiro de um policial que não trabalha há anos supostamente por causa de distúrbios mentais, mas que fez Medicina apresentando um atestado atrás do outro. O outro é do soldado que estaria perturbado, mas trabalha normalmente como segurança em empresa privada. O coronel Joelson Sampaio explicou que mesmo com a necessidade de validação dos atestados pela equipe de médicos peritos do Estado, as licenças falsas têm longa duração. Além de conseguir agendar a perícia somente para dois ou três meses de obter o atestado, a legislação exige que o policial esteja acompanhado de um parente ou responsável enquanto é periciado. Muitos, sabendo disso, faltam ou comparecem sozinho, o que exige a remarcação de nova perícia para dois ou mais meses depois. Enquanto a perícia não é feita o policial permanece afastado das funções. A dificuldade de atestar ou não a doença mental também seria outro empecilho. Muitas vezes a própria perícia mantém parcial a licença, apesar das suspeitas de falsidade. “Vamos pegar pesado contra esses policiais”, avisou o comandante. Farias disse que essa situação tem causado indignação entre os PMs que trabalham corretamente. Além disso, transmite à sociedade uma sensação de impunidade para aqueles que comprovadamente cometeram crime pela demora da expulsão. “Recebemos pressão dos policiais, da imprensa e da sociedade”, destacou. Procurado pela reportagem, o médico Ubiratã Barbalho disse que se posicionaria em duas semanas sobre as acusações e que forneceria o telefone de seu advogado, o que não aconteceu.

Edição EDIÇÃO 16962




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