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Cuiabá MT, Segunda-feira, 15 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 09 de Junho de 2007, 14h:23

CLIMA

O preço do consumo

O 4º Relatório de Avaliação do IPCC teve o condão de alterar forma como o ser humano vê e se relaciona com o mundo. De algo remoto e restrito às ongs, o aquecimento global virou prioridade. A culpa e a solução têm um só nome: o homem.

RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
Pense no material que gerou as páginas deste jornal. Considere, além do papel, as tintas. Lembre-se da energia consumida pelas máquinas no processo de impressão. Lembre-se que a produção empregou computadores, blocos de anotação, esferográficas, espaços de trabalho iluminados e climatizados. Agora olhe ao seu redor e tente identificar a cadeia de produção de cada um dos objetos, produtos e comodidades que compõem o seu padrão de vida. Imagine como foram feitos, mensure as matérias primas, os custos com transporte, as embalagens, os plásticos, o papelão. Estenda o exercício às ruas e avenidas de Cuiabá. Nelas trafega uma frota de quase 190 mil veículos, movidos majoritariamente a derivados de petróleo. Pense na quantidade de pneus, lubrificantes e espumas sintéticas. Estime livremente a quantidade de fumaça expelida pelos escapamentos de cada motor. O mundo moderno se move e é movido pelo consumo. Da mais avançada bugiganga eletrônica às brancas sacolas plásticas do supermercado, a sociedade necessita deste impulso para seguir adiante. A dependência, porém, faz mais do que movimentar economias e gerar empregos. Ela está a impor ao planeta um fardo muito acima de sua capacidade. Este ciclo desenfreado, ao qual menos de um terço da população mundial tem acesso, depende de suprimentos cada vez maiores de energia - obtida em grande medida a partir da queima de combustíveis fósseis, não-renováveis e emissores de gases que causam o efeito estufa. Dados do World Resources Institute (WRI) apontam que a atmosfera recebeu, nos últimos 200 anos, um aporte de 2,3 trilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). A metade desse montante foi despejada somente nas últimas três décadas – em 2004, de acordo com a mesma fonte, foram mais de 28 bilhões de toneladas. A poluição só tende a crescer. Estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE) apontam que a necessidade global por energia deverá mais que dobrar nos próximos 20 anos. Haverá mais pessoas, mais indústrias, mais produção. Mundo afora, porém, acumulam-se os sinais de esgotamento deste modelo. Enquanto minguam as fontes de água potável, sobram os rejeitos domésticos e industriais. Áreas de florestas nativas vêm se tornando ilhas em meio a campos de agricultura intensiva. Metrópoles incham sem controle. Aos olhos da maior parcela dos cientistas, não restam mais dúvidas de que as alterações climáticas sentidas hoje são resultado direto destas ações humanas. E o futuro nos reserva conseqüências ainda mais assustadoras. Este ano, com a divulgação, em três documentos conclusivos, do conteúdo do 4º Relatório de Avaliação do IPCC - painel formado pelas Nações Unidas, que reúne milhares de especialistas de todo o mundo – a possibilidade ganhou finalmente a prioridade dos governos. O relatório aponta que a temperatura do planeta poderá subir 1,8ºC e 4ºC ao longo deste século. Isso agravaria o atual ritmo de derretimento de geleiras e de elevação no nível dos oceanos, além de favorecer enchentes, secas, furacões e ciclos anormais de floração de plantas e da reprodução de animais. No Brasil, os riscos não se limitam às regiões costeiras – no Rio de Janeiro (RJ), praias de cartão postal seriam submersas. A Amazônia e o Pantanal também estão ameaçados, bem como todo o setor agrícola que se estabeleceu no centro-oeste a partir dos atuais ciclos de cheias e secas. Na semana do Meio Ambiente, o Diário ouviu pesquisadores, ambientalistas, políticos e empresários para apresentar um panorama das mais recentes conclusões a respeito das alterações climáticas e, principalmente, de seus efeitos em escala regional. O retrato da crise é perturbador, mas também se mostra como uma janela de oportunidade. Nunca houve tamanho incentivo às práticas sustentáveis. Jamais as pessoas estiveram tão abertas a alterar, para melhor, seus padrões de vida e consumo. E a aposta nos biocombustíveis representa a busca por um novo padrão energético. Não é tarde ou caro demais evitar o pior, asseguram os cientistas. Mas é preciso tomar logo a direção correta. No cenário mais otimista, nos resta pouco mais de uma década para decidir nosso futuro.

Edição EDIÇÃO 16962




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