CIDADES
Sábado, 07 de Abril de 2012, 14h:21
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CUIABÁ 293 ANOS
O abandono da alma
O Centro histórico é um dos últimos bastiões da história de Cuiabá, mas vive problemas de toda ordem
JARDEL PATRÍCIO ARRUDA
Da Reportagem
A fundação de Cuiabá se deu às margens do Rio Coxipó, em uma região conhecida como Arraial da Forquilha. Entretanto, a alma da cidade está intimamente ligada ao Centro Histórico. Um lugar onde até hoje podem ser vistas as construções do século XVIII em cores vivas, com janelas grandes, portas largas e beirais ao estilo barroco. Um lugar onde as ruas são sinuosas e estreitas, como um verdadeiro labirinto, cujas paredes são casas intimamente próximas, quando não coladas umas às outras. O Centro histórico é um dos últimos bastiões da história de Cuiabá. Os casarões de adobe - forma rudimentar de alvenaria feita de terra crua, água e palha -, os sobrados coloniais e as ruas tortas que o compõem surgiram com o advento do garimpo de ouro no córrego da Prainha, onde se encontrava ouro de aluvião em quantias imensuráveis, como relatam os livros e a população local. A região que deveria ser guardada e protegida não só pelo poder público, mas pelo povo cuiabano em geral, convive com uma série de problemas, tanto de infraestrutura, quanto de ordem social. Somente uma ação planejada e executada entre município, Estado e União para solucionar essa questão até 2019, quando Cuiabá completará 300 anos. Hoje, o Centro Histórico abriga viciados em drogas em vários casarões abandonados. As pichações e a pouca iluminação noturna fazem das ruas sinuosas um local assustador. Não bastasse isso, as fiações elétricas e telefônicas, invasores modernos em um espaço arquitetônico colonial, trazem constantes riscos de incêndio. Todos esses problemas acabam fazendo com que o Centro Histórico só seja lembrado pela imprensa com negativismo. Seja para falar dos problemas sociais, da fiação que há dez anos deveria estar no subterrâneo, ou de manifestos de moradores da região contra uma suposta inércia do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autarquia federal responsável pela preservação dos patrimônios tombados - na hora de buscar soluções para o local. Eles (Iphan) não fazem nada para melhorar as coisas e ainda impedem quem quer reformar. Aí tem casa antiga servindo de abrigo de drogado, casarão caindo aos pedaços. E não são só eles não, a prefeitura, a polícia, ninguém faz nada, diz Carlos Pereira, 43, comerciante instalado na região há cinco anos. Ele conta que, desde quando mudou sua loja para lá, viu apenas os calçadões serem revitalizados e algumas ações pontuais feita por moradores. Por sua vez, o IPHAN explica não ser um órgão executor, mas sim fiscalizador. A missão da referida autarquia federal é de conservar os patrimônios históricos materiais e imateriais, e não realizar obras de revitalização, o que seria de responsabilidade do município e dos proprietários das construções tombadas. Ao Iphan cabe a função de multar quem não toma as devidas providências para manter o Centro Histórico conservado, ou acionar judicialmente se necessário. Entretanto, uma Ação Civil Pública possui todos os trâmites burocráticos da lenta Justiça brasileira, sendo ainda possível uma série de recursos e outras manobras por parte do acionado. A obrigação de cuidar é do proprietário, ratifica Marina Coutinho de Abreu Lacerda, superintendente do Iphan Mato Grosso. Enquanto a população não entender, fala, concluindo a linha de raciocínio com um abanar de ombros. Ao menos o problema das fiações parece estar perto de ser resolvido. A Rede Cemat bancou um projeto elaborado em conjunto pela Secretaria de Estado de Turismo (Sedtur), Secretaria Municipal de Turismo e IPHAN, que prevê um aterramento da fiação de todo Centro Histórico e de alguns pequenos trechos do entorno. As empresas de telefonia estariam se adequando ao projeto, cujas obras estão previstas para serem bancadas pelo PAC-Cultura. O projeto executivo será posto em prática esse ano, assim como as licitações, e as obras devem ocorrer em 2013, de modo a estarem prontas para a Copa do Mundo de 2014. Entretanto, aterrar as fiações é muito pouco para o Centro Histórico poder demonstrar sua verdadeira importância histórica, além de tomar seu lugar de direito como ponto turístico e cartão-postal no aniversário de 300 anos de Cuiabá. Para isso, será preciso maior esforço das autoridades públicas e dos proprietários.