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CIDADES
Sábado, 01 de Outubro de 2011, 12h:47

HISTÓRIA DE VIDA

No currículo, 1.811 partos na Capital

Lúcida e alegre, dona Lucinda comemorou 94 anos no último dia 27 quando relatou trajetória de ajudar a trazer ao mundo um miniestádio cheio

JOANICE DE DEUS
Da Reportagem
Se fosse reunir todas as crianças que ajudou a vir ao mundo, dona Lucinda Gomes da Silva, 94 anos, precisaria de, no mínimo, um miniestádio para acomodar tantas pessoas. Parteira tradicional formada pela experiência, a moradora do antigo bairro Cai-Cai, hoje Popular, em Cuiabá, fez ao longo de sua vida 1.811 partos, inclusive de pessoas famosas como o saudoso artista Liu Arruda. Nascida em Rosário Oeste (128 quilômetros da Capital), ela veio a pé (foram três dias de caminhada) com os pais para Cuiabá com seis anos de idade. Em 1949, ela começou a dedicar boa parte de sua vida ajudando às mulheres a darem a luz em suas próprias casas e no antigo Hospital Geral, hoje Universitário (HGU). No dia 27 de setembro passado, a rosariense completou mais um ano de vida. Lúcida, sorridente e comunicativa, dona Lucinda diz que hoje apenas o reumatismo lhe incomoda. “Não tenho diabetes e tenho pressão de uma jovem”, comenta. Apesar das dores nas articulações, ela não consegue ficar parada. “Fui criada trabalhando. Não gosto de ficar parada nem que seja para tirar um objeto daqui e colocar ali”, comenta. Foi com muito trabalho que dona Lucinda conseguiu sustentar a família. O marido dela morreu em 1959. Mãe de nove filhos (um já falecido), dona Lucinda hoje tem 20 netos e 15 bisnetos. “Ela é muito querida, um orgulho para toda a família”, afirma a funcionária pública federal, Eliane Nazareth da Silva, 55 anos, filha de dona Lucinda. A parteira reconhece que a tarefa não foi fácil, mas conseguiu educar e garantir os estudos dos filhos. “Criei sozinha, foi difícil. Mas nunca comprei fiado e não aceito cobrança na porta”. Dona Lucinda conta que aprendeu tudo sobre partos com o médico Clóvis Pitaluga de Moura. “O doutor Clóvis me ensinou muito. Eu fiz muitos partos difíceis e não tinha horário. Era de dia, à noite e, muitas vezes, tinha que sair debaixo de chuva”, lembra. “Após três horas que a mulher entra em trabalho de parto dá para a gente saber se vai ser difícil. A gente ficava muito feliz quando a criança nascia”, completa. Ela anotou todos, inclusive o sexo da criança, em um caderno que já não possui mais. No meio de tantas alegrias, a rosariense, mas cuiabana de coração, também lembra-se de fatos tristes que ocorreram naquela época em que tudo era mais difícil e que até para lavar roupa era preciso ir a pé, com a trouxa em cima da cabeça, até o rio Cuiabá, na região do Coophamil. Um desses fatos foi a epidemia da “bexiga”, doença que matou milhares de pessoas na Capital, sendo que muitas foram enterradas no antigo cemitério (que teria dado lugar a uma praça) do Cai-Cai. À época, a “bexiga” era o nome que se dava à varíola. Em Cuiabá, a epidemia só começou a ser controlada a partir de dezembro de 1867. Estima-se que mais de três mil pessoas morreram vítimas da doença. Dona Lucinda afirma que gostava muito da profissão, mas teve que abandoná-la em 14 de janeiro de 1974 por conta de um acidente. E como não gosta de ficar parada, ler é uma de suas atividades preferidas, especialmente quando o assunto é política. “Leio bastante sobre política para saber em quem votar”, diz. Ela completa: “a gente tem que estar bem informado para poder escolher o candidato. Não acho certo políticos ficarem trocando de partidos. Têm que ter personalidade. Eu votei no Wilson Santos, mas ele saiu (da prefeitura) na hora errada. Deveria ter ficado e feito um bom governo. Saiu e deixou a prefeitura na mão errada”, comenta criticando ainda o processo de concessão do serviço de abastecimento de água na Capital. Personalidade é o que não falta à dona Lucinda. Mesmo com tanta vitalidade aos 94 anos, ela conta que já está com tudo preparado para o seu velório ou enterro. Já escolheu até a roupa que quer estar usando no dia. Revela ainda o segredo de sua lucidez. “Não bebo e não fumo. Não tomo nem refrigerante”.

Edição EDIÇÃO 16962




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