CIDADES
Sábado, 26 de Fevereiro de 2011, 14h:03
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PRAINHA
Mudança abala moradora há 50 anos na via
Só a notícia sobre possível derrubada da casa onde nasceu, criou irmãos e acompanhou evolução da cidade causa tristeza suficiente em dona Joselina
CAROLINA HOLLAND
Da Reportagem
Da janela de sua casa, Joselina Maria de Siqueira, de 83 anos, acompanhou as mudanças do Centro de Cuiabá durante mais de 50 anos. Hoje, com a possibilidade de desapropriação de boa parte dos moradores da avenida Tenente Coronel Duarte, a Prainha, ir até a janela para observar o movimento ganhou ar de tristeza. Eu olho e fico imaginando até quando vou ficar por aqui, lamenta. Muitos comerciantes e moradores terão que deixar o local para dar lugar ao corredor BRT (Bus Rapid Transit), obra para a Copa do Mundo de 2014. Dona Joselina é uma das moradoras mais antigas do Centro da cidade. Passou alguns anos morando em uma casa no Beco do Candeeiro, mas viveu a maior parte do tempo onde reside atualmente, na esquina da rua dos Bandeirantes (antigo Beco Alto) com a Prainha. Caso tenha mesmo que deixar a casa, será a segunda perda por conta de mudanças na via, mas, dessa vez, muito maior. Quando construíram a avenida e cobriram o córrego, perdemos quase metade dessa casa. O terreno era cheio de árvores frutíferas, com muita área verde. Tudo se foi. Agora, tão dizendo que vou ter que deixar a casa inteira. A Prainha era um riacho até 1962, quando a avenida foi aberta e o córrego, canalizado. O córrego foi coberto em 1978. A vida tranquila de dona Joselina mudou após começarem os rumores de desapropriação de parte da avenida. Ela já não dorme direito e emagreceu 13 quilos. Eu fico muito aborrecida só de pensar nisso. Tem gente que quer sair do Centro, mas eu não. Esse é meu cantinho, passei a vida toda aqui. Não quero sair. A aposentada pelo INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), presenciou as mudanças pelas quais a avenida passou ao longo de décadas. Pouco a pouco, as casas foram tomadas por construções de apelo comercial e os moradores começaram a buscar bairros mais afastados da região, que ficava cada dia mais movimentada e barulhenta. O asfalto potencializou esse processo. Acho que a maior novidade pra quem morava aqui foi ver os carros passando na frente de casa. Aquilo foi um espanto!, conta. Outra lembrança de décadas atrás era a quantidade de ouro que havia na área. Dona Joselina viveu no tempo em que era possível encontrar pepitas de ouro na rua de casa. Principalmente depois que chovia e nem era preciso procurar muito. Mas mesmo com essa facilidade, encontrar uma pepita era motivo de comemoração, lembra. A casa onde vive foi construída há mais de um século, segundo cálculos da família, e passou por diversas reformas ao longo do tempo. Isso aqui foi deixado do meu avô para o meu pai. Eu não saberia dizer exatamente quando ela foi erguida, mas com certeza foi há mais de 100 anos, afirma. Pela proximidade de onde mora, dona Joselina estudou em duas das instituições de ensino mais tradicionais em Cuiabá, a extinta Escola Modelo Barão de Melgaço e a Escola Estadual Liceu Cuiabano Maria de Arruda Müller. No entanto, apesar de gostar de estudar, a aposentada se viu forçada a abrir mão de fazer uma faculdade por causa da morte precoce do pai, Joaquim de Siqueira, quando ele tinha apenas 48 anos. Eu era adolescente quando papai morreu. Minha mãe [Cecília Lisboa de Siqueira] não tinha condições de criar 10 filhos sozinha. Eu, que era a segunda mais velha, ajudei nessa tarefa. Assumi essa responsabilidade muito cedo, conta. A devoção à família acabou minando o desejo de dona Joselina em constituir sua própria família. Essas responsabilidades que tive desde cedo fizeram com que eu não tivesse vontade nenhuma de casar e ter filhos, avalia. O tempo passou e os irmãos foram saindo da casa. No entanto, ela e uma das irmãs continuaram ali. Eu gosto demais daqui, nunca quis me mudar. Por mim, eu passaria o resto da vida nessa casa, afirma. DEVOÇÃO - Hoje em dia, ela diz que o que mais gosta no local onde mora é a proximidade da Igreja de São Benedito, santo do qual é devota. Por questões de saúde, dona Joselina não vai mais à missa todos os domingos como antigamente e reza apenas em casa. Outro hábito perdido, mas por motivos diferentes, foi o de ficar na porta de casa conversando com os vizinhos. Apesar de não ter tanto medo de assaltos, não me sinto segura mais para ficar na rua papeando, principalmente de noite, diz. A saudade de antigos moradores também desanima. Todo mundo se conhecia, era uma grande família. Mas, com o passar do tempo, muitos morreram e muitos mudaram daqui. Não é mais a mesma coisa. Da porta de casa, é possível ver a imagem de São Benedito na Igreja do Rosário. Todos os dias, ela abre a porta e olha à sua direita para rezar para o santo. O ritual, feito há anos, ganhou significado diferente nos últimos tempos. Hoje, eu só peço para que ele me ajude a não sair daqui.