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CIDADES
Sábado, 15 de Agosto de 2009, 13h:06

OBRAS DO PAC

Morte ainda sem B.O.

Esposa de um dos operários que morreram no acidente no Araçá não consegue certidão por falta de registro

STEFFANIE SCHMIDT
Especial para o Diário
Passados 12 dias da morte de dois operários nas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do Jardim Araçá, o boletim de ocorrência do acidente ainda não foi sequer registrado. A doméstica Cláudia Adriana de Souza, 31, esposa de José Roberto Fernandez de Carvalho, 26, descobriu apenas na sexta-feira que não poderia dar andamento aos trâmites da certidão de óbito do seu marido porque a empresa simplesmente não oficializou o comunicado à polícia. “Eu não consigo nem pensar. Meus filhos vivem com febre e não têm vontade de comer desde que meu marido morreu”, afirmou Cláudia. Ela aguarda o chamado da delegada do Cisc Verdão, Ana Cristina Feldner, para participar dos interrogatórios. “Eles querem que eu presencie os depoimentos”. As interrogações de Cláudia ainda são muitas. Durante o velório, vários amigos de José Roberto, que estavam na obra durante o acidente, se aproximaram dela para contar que o local foi alterado antes da chegada da imprensa. “Um deles me disse que colocaram madeiras pra fazer o suporte do deslizamento depois do acidente”. Em maio, um relatório do departamento técnico da Polícia Federal constatou a falta de madeiramento nas bordas das escavações, além de dúvidas sobre a utilização de dutos rachados, na rede de esgoto. “Um outro operário se aproximou e disse que estava disposto a depor a meu favor, mas quando se aproximou com uma caneta, para pegar meu telefone, o pessoal da empresa o afastou. Nunca mais vi esse homem”, conta. Transtornada, Claudia desmaiou e chegou a ser levada para o Pronto-socorro Municipal de Várzea Grande durante o enterro. O desespero de Claudia pode ser sentido na voz quando conta o que ouviu das pessoas. “Dizem que ele morreu gritando! Chamando por mim e pelos filhos. Não deixaram ninguém socorrer até que o Corpo de Bombeiros chegasse”, conta. Cláudia e José Roberto estavam desempregados e enfrentavam falta de comida em casa quando ele se candidatou a uma vaga no canteiro de obras no Cristo Rei. “Minha filha dormia pedindo para mamar”. Sem experiência, ele se candidatou a uma vaga no canteiro de obras no Cristo Rei, em Várzea Grande, depois de distribuir o currículo em vários lugares. “Nesse dia ele pediu a Jesus que não voltasse para casa sem emprego. Quando viu a obra, esperou a tarde toda para conversar com o gerente que resolveu dar uma chance a ele”. Nas duas primeiras semanas, segundo ela, José Roberto trabalhou no Cristo Rei e não “entrava em buracos, pois não tinha experiência”. Depois desse período, foi transferido para a obra em Cuiabá com a promessa de ganhar mais. “Ele falava assim: Amor, eles me colocaram em um buraco muito fundo, porque eu tinha que aprender. Eu entrei com medo, mas eu tinha que entrar porque não podia perder o emprego”. Há uma semana, Cláudia recebeu o pagamento por 30 dias de serviço do seu marido, conclusos dois dias antes de sua morte. O total: R$ 507. “Eu sei que não tínhamos arroz, nada em casa, mas eu amava demais ele e as crianças também. É duro você ver seu marido sair para trabalhar e voltar em um caixão”. A reportagem entrou em contato com a sub-empreiteira Cuiabano, que preferiu não se manifestar.

Edição EDIÇÃO 16962




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