NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 07 de Fevereiro de 2009, 15h:03

Medo impunha vigílias sob lona

Quando a imensidão da noite chegava, dormir era um privilégio raro em meio ao mato distante da sede na fazenda Cinco Estrelas. Com medo de não amanhecerem vivos, os trabalhadores organizavam vigílias e um esquema de revezamento para descansar no período noturno, quando o temor se espalhava nos barracos de lona. Raimundo Nonato, que em 2003 ainda era menor de idade e hoje tem 23 anos, lembra das madrugadas longas que passou acordado temendo ser queimado dentro do barraco por capangas do proprietário, que rondavam os lavradores durante a noite. “Nem o cansaço de ter trabalhado o dia todo com o peso da enxada sob o sol me fazia dormir direito”. Ele foi acompanhando o padrasto Sebastião Silva, o “Nego Faca”. Depois que o viu ser agredido a pauladas pelo proprietário da área, Sebastião Neves de Almeida, conhecido como “Chapéu Preto”, Raimundo não conseguiu mais esquecer a imagem. “Me senti um escravo. Humilhado e impotente. Me sentia muito mal vendo todo mundo apanhar. O que mais me maltratou foi ver um velhinho doente levando tapas na cara e ouvindo que ele não prestava para nada e ter que continuar roçando”. A realidade de Raimundo não é diferente da de dezenas de brasileiros que ainda não tiveram a sorte de ser encontrados mata adentro. Apesar de 5.257 pessoas terem sido libertadas de trabalho escravo ou degradante em Mato Grosso entre os anos de 1995 e 2008, o acesso aos locais é difícil e a impunidade gera medo nos trabalhadores para que testemunhem como acusação criminal. Além disso, muitas vezes o efetivo de fiscais não é suficiente para averiguar a todos os casos. “Às vezes fazemos a denúncia, mas até a superintendência chegar aqui é uma situação muito difícil e demora. A Polícia Federal quer tudo pronto. Então, a gente tem que fazer a denúncia e tomar cuidado para que o fazendeiro não desconfie que a fiscalização está chegando”, ressalta a freira Leonora Bruneto, agente da Pastoral da Terra. O coordenador de fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho, Ademar Fragoso, frisa que no ano passado foram realizadas 30 operações de fiscalização, com 578 trabalhadores resgatados. Há 10 anos, apenas três ações haviam sido realizadas, com 19 libertados. Em 2008, 80 auditores foram nomeados e 5 equipes de grupos móveis estaduais de fiscalização montados. Contudo, ele admite a dificuldade do poder público em fiscalizar áreas distantes. Leia também #LINK#338924#Caso mais grave de escravidão em Mato Grosso está impune #LINK#338925#Defesa sustenta tese de armação #LINK#338926#Artimanhas se renovam no crime #LINK#338927#Medo impunha vigílias sob lona #LINK#338928#Sociedade precisa denunciar e exercer pressão política #LINK#338929#Corrente servia para evitar fuga #LINK#338930#‘Protetora’ é alvo de atentados

Edição EDIÇÃO 16966




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL