CIDADES
Segunda-feira, 10 de Março de 2008, 22h:15
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NAUFRÁGIO II
Lembranças viram pesadelo para pecuarista
Som da explosão e imagens da água barco a dentro permanecem na memória de Godoberto Dreher, sobrevivente da chalana, que pode ter perdido gosto por pesca
ALINE CHAGAS
Da Reportagem
Uma explosão e muita água. Estes são o som e a imagem que passaram a tomar conta das noites do pecuarista de Diamantino, Godoberto Dreher, um dos sobreviventes do acidente da chalana no Pantanal Mato-grossense, na madrugada de domingo. Pescador profissional há muitos anos, o pecuarista contou ter pensado rápido e disse que 15 segundos fizeram diferença para salvar a vida daqueles que conseguiram sair do barco. Dreher e os nove turistas eram amigos de lazer e faziam a primeira viagem juntos para pescar. Acordei às quatro horas da madrugada com uma explosão muito forte. Só teve tempo do Márcio (Oliveira Costa, outro sobrevivente) abrir a porta e eu acender a luz. Vimos que a água entrava muito rápido e decidimos sair. Depois disso, o gerador da chalana desligou. Quando chegamos ao corredor, a água vinha no peito. Giovane (também colega de quarto de Dreher que está desaparecido) disse que não conseguia subir e nós o puxamos até a superfície. Depois disso, não o vimos mais, relatou. Assim que chegaram à superfície, os colegas avistaram um barril de gasolina boiando e nadaram para alcançá-lo. Quando lá chegaram, encontraram mais dois colegas turistas e começaram a procurar qual a margem mais próxima. Dreher contou que assim que eles saíram do barco, a luz do topo da chalana ainda estava acesa e, por isso, conseguiram ver que a margem direita estava mais perto. Antes de tentar nadar até ela, o grupo passou por outros barris boiando e se dividiu. Logo depois, os quatro avistaram barcos com piloteiros e pediram ajuda. Os piloteiros conseguiram desamarrar três barcos. Quando subimos nas embarcações, eu pedia para irmos à margem direita, mas ninguém me entendia porque não sabiam que eu tinha conseguido avistar que estava mais próxima. Quando chegamos perto da mata, ouvimos um galo cantar e percebemos que deveria ter fazendas por perto. Por isso, começamos a gritar. Em seguida, um fazendeiro ligou o gerador e várias luzes se acenderam, disse. Ele relatou que ficou impressionado com a rapidez com que a notícia se espalhou e com o apoio oferecido pelos ribeirinhos e fazendeiros, que cuidaram de avisar as equipes de resgate, arrumaram roupas para os sobreviventes, alimentação e comunicação (com familiares e AABB). Godoberto lembrou que durante a noite, os colegas estavam muito felizes, conversando sobre o campeonato de truco que começava e o campeonato de pesca. Já tínhamos comprado até os troféus, contou. Depois de jogar as partidas oficiais do campeonato, os pescadores ainda jogaram bozó antes de decidir dormir. Dreher lembrou que chovia muito durante a noite e, por isso, a tripulação decidiu parar a embarcação por segurança, para recomeçar a viagem durante a madrugada. Ainda em choque com o acidente, o pecuarista disse que não sabe se voltará a pescar em viagens de chalana. A viagem marcada para outra pescaria - em Cáceres - no próximo mês será cancelada. Acho que só vai cair a ficha quando a gente for ao velório. Éramos todos amigos. Não dá para acreditar ainda que isso aconteceu.