CIDADES
Sábado, 12 de Maio de 2007, 13h:11
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AMOR DE MÃE
De 14 filhos gerados, 5 são deficientes
Maria Zenaide, 60, analfabeta, moradora do Pedra 90, é um exemplo de paciência e dedicação ao gerir, com muita coragem, a vida de 5 filhos especiais
ALECY ALVES
Da Reportagem
É impossível não se emocionar com a história de vida ou admirar a coragem e capacidade de amar de dona Maria Zenaide de Jesus Santos, de 60 anos, especialmente hoje, Dia das Mães. Mãe de 14 filhos, cinco deles deficientes mentais, ela foi abandonada pelo marido há 17 anos, dois meses depois do nascimento do filho caçula, Gilmar de Jesus, também portador de graves transtornos mentais. Analfabeta, moradora do bairro Pedra 90, uma das regiões mais pobres de Cuiabá, dona Maria Zenaide tem preocupações e sonhos diferentes da maioria das mulheres que experimentam a maternidade. Os cinco filhos deficientes dela não falam e não têm capacidade de discernir o que é certo ou errado, portanto, todos precisam de atenção em tempo integral. E ela, humildemente, disse que seu sonho é um dia ver os filhos falando, pelo menos dizer o que estão sentindo, que possam ser melhores atendidos em suas necessidades básicas. Já o seu maior temor é a morte, e ela explica porque. Muitas vezes, quando me deito para dormir, choro sozinha. Não choro porque tenho filhos assim, deficientes, ou porque somos pobres, mas por medo de morrer e deixá-los no mundo, sem uma pessoa para cuidar deles. Quando Deus me chamar, o que será desses meninos?, desabafa dona Maria. Às vezes, nos momentos de oração, ela diz que pergunta a Deus porque a escolheu para ser mãe desses filhos. Por que eu, senhor?, indaga ela. Não ouço vozes me respondendo, mas entendo que essa é minha missão e por isso tenho de aceitar, me conformar e amar a todos eles como realmente são, ensina. Na casa simples onde vive com os cinco filhos deficientes é possível perceber, em questão de minutos, que os sentimentos que convencionalmente se espera de uma mãe, como amor, paciência e proteção, estão presentes em todos os gestos. A minha vida é assim, às vezes sofro raiva, como todas as mães, mas também dou muitas gargalhadas com eles, conta ela, enquanto pacientemente preparava o lanche da tarde, sanduíches, e serve refrigerante aos filhos. A exemplo do que acontece em todas as famílias, na casa dela também há desentendimento entre os irmãos. Esta semana, por exemplo, Willian, de 25 anos, deficiente mental, teve de ir para a casa da irmã depois de se desentender com o irmão Airton, 25 anos, também deficiente. José, de 26 anos, e Antônio Gino, de 40 anos, o mais velho da família, são tranqüilos, raramente brigam, segundo a mãe. Mas com Gilmar, o mais novo, dona Maria tem grandes preocupações. Ele tem mania de fazer carinho em mulheres que ele não conhece, o que pode, no entendimento da mãe, envolvê-lo em situações perigosas. Outro dia, dentro do ônibus em que a gente seguia para o CPA, ele passou a mão em uma mulher, irritando ela e o marido. O homem disse um monte de coisas, até ameaçou bater nele, mas logo depois, graças a Deus, viu que Gilmar tem problemas e desceu do ônibus sem cumprir as ameaças, relembra ela. Dona Maria Zenaide diz que não sabe a causa de ter tantos filhos deficientes mentais. Com o ex-marido, Alfredo Gino dos Santos, garante ela, não tem nenhum grau de parentesco. Dos 14 filhos dela, apenas o mais novo nasceu na cidade. Primeiro moramos num sítio entre as cidades de Rondonópolis e Poxoréu. De lá, quando quase todos já eram nascidos, viemos morar na zona rural de Cuiabá, num lugar chamado Santa Tereza. Só depois a gente veio pra cidade, conta ela. No bairro Pedra 90, onde mora há 8 anos, dona Maria ganhou um lote do governo do Estado e com muito custo construiu a casinha de três peças em que mora até hoje.