CIDADES
Sábado, 07 de Fevereiro de 2009, 15h:05
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Corrente servia para evitar fuga
O desemprego no Maranhão trouxe em 2003 os irmãos Manuel de Castro, hoje com 21 anos, e João Filho Castro, de 23 anos, para trabalhar no promissor Mato Grosso, onde já estava o outro irmão, Manuel Cristo Guimarães. Noventa dias após a chegada, aceitaram uma proposta de emprego feita por Luiz Bang. Só não imaginavam que trabalhariam acorrentados. Quando os dois foram libertados pela Polícia Federal, chegaram em casa aliviados, com as pernas bastante inchadas, que pareciam picadas por cobras. Quando me responderam por que estavam daquele jeito, fiquei sabendo que ficavam com correntes de ferro no pé para não fugir, acho que durante a noite, relata Guimarães. Os dois meninos, menores na época, não teriam recebido nada de indenização. Só chegaram com a roupa do corpo. Pegar dinheiro eles não pegaram, porque até para ir embora para casa tiveram de esperar eu juntar e poder pagar a passagem, diz. De Mato Grosso, nenhum dos dois que voltaram para o Maranhão querem nem ouvir falar, garante o irmão. Eles fazem parte das vítimas que não tiveram conhecimento sobre a ação penal movida contra o fazendeiro. Assim como o outro trabalhador que também teve a liberdade cerceada, Raimundo Machado, de 56 anos. Ele desconhece seus direitos, mas pela própria natureza humana infere que a agressão presenciada contra os colegas é ilegal e imoral. Justiça para Machado seria o fazendeiro Sebastião Neves de Almeida, o Chapéu Preto, se tornar uma pessoa de bom coração. Já do Poder Judiciário ele nada espera, até mesmo por ser esse um instrumento pouco utilizado em regiões como essa. Ele está rico lá, a gente continua trabalhando assim para sobreviver e é a vida. Já passou tanto tempo, que eu nem quero nada contra ele, desabafa. Machado agradece a Deus todos os dias por ter saído vivo da propriedade rural, mas e se a fiscalização do Grupo Móvel não chegasse? A gente ia apanhar quietinho, né?, e trabalhar. Não tinha nada mais a ser feito. Eles (capangas) estavam armados, e nós, só tínhamos a unha para nos defender. Quem apanhou, apanhou, diz. São nomes de cidadãos como Machado e os dois irmãos de Guimarães, às vezes com casos que não chegam a agressões, que constam como vítimas em prateleiras de processos na Justiça Federal e curiosamente, em muitos casos, não são encontradas para depor. As ações penais não chegam a ser numerosas, há apenas 12 em Mato Grosso, enquanto até 2008 o descompasso mostrava 669 inquéritos civis trabalhistas por trabalho degradante ou análogo à escravidão no Estado. A única condenação já registrada no Estado foi a de Raimundo Alves de Oliveira e Sebastião da Silva, condenados a 4 anos em 2004. Porém, a pena branda pode ser revertida a restrição de fim de semana, como pena alternativa. O mesmo aconteceu na primeira condenação nacional, quando em fevereiro de 1998 o fazendeiro Antônio Barbosa de Melo, do sul do Pará, teve sua pena convertida no pagamento de 30 cestas básicas. Leia também #LINK#338924#Caso mais grave de escravidão em Mato Grosso está impune #LINK#338925#Defesa sustenta tese de armação #LINK#338926#Artimanhas se renovam no crime #LINK#338927#Medo impunha vigílias sob lona #LINK#338928#Sociedade precisa denunciar e exercer pressão política #LINK#338929#Corrente servia para evitar fuga #LINK#338930#Protetora é alvo de atentados