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CIDADES
Segunda-feira, 10 de Março de 2025, 17h:00

COMANDO VERMELHO E PCC

Como facções usam o assistencialismo para aliciar comunidades carentes

Estado registra apreensões sucessivas de cestas básicas vinculadas a facções criminosas. Tática é utilizada para “conquistar” locais

GALTIERY RODRIGUES
Do Metrópoles
PJC
Os policiais identificaram um ponto de armazenamento de mercadorias e iniciaram o monitoramento

Apreensões recorrentes de cestas básicas vinculadas à facções criminosas, nos últimos meses, têm revelado como o crime organizado adota a prática assistencial, com doação de alimentos, remédios e outros itens de necessidade básica, como uma estratégia para conquistar a confiança, aliciar e influenciar comunidades carentes.

Só em Mato Grosso, Estado que luta para evitar o avanço das facções criminosas, milhares de cestas básicas do Comando Vermelho (CV) foram apreendidas do ano passado para cá, em diferentes cidades e regiões.

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O intuito da distribuição dos alimentos, segundo a Polícia Civil do Estado, é sempre o mesmo: garantir o apoio e silêncio locais para dificultar a atuação policial.

O delegado titular da Gerência de Operações Especiais (GOE), da Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso (PJC-MT), Frederico Murta, explica que o assistencialismo “criminal” está presente desde a origem das organizações criminosas, não restringindo-se, apenas, ao Estado.

“Essa é uma tática muito comum. Geralmente, elas atuam onde o Estado se faz ausente e se aproveitam dessa lacuna”, diz ele.

A facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) também tem histórico de doações e auxílio social, como forma de angariar apoio popular, desde a sua origem.

No início dos anos 2000, por exemplo, o grupo criminoso mantinha pontos de apoio a moradores de bairros carentes de São Paulo, com cadastro de famílias para receber leite, gás de cozinha e cestas básicas.

Essa tática facilita a infiltração dos grupos criminosos no dia a dia das comunidades, além de demarcar territorialmente a área de influência e domínio.

Fora isso, outra consequência direta da aproximação do crime com pessoas em situação de vulnerabilidade, por meio do assistencialismo, é o aliciamento de novos integrantes para as facções.

O alvo, nesse caso, geralmente, são os mais jovens.

NOVOS INTEGRANTES - Em agosto do ano passado, a polícia apreendeu 215 cestas básicas que seriam distribuídas por uma facção criminosa em cidades de Mato Grosso, na região da fronteira com a Bolívia.

O caso foi descoberto, após denúncia anônima, que informou que um caminhão cheio de mantimentos havia saído de Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá, com destino à fronteira.

O objetivo da facção com a entrega das cestas, conforme o denunciante, era ganhar a simpatia da população e recrutar novos integrantes para o grupo.

Mato Grosso possui uma fronteira extensa com a Bolívia, de cerca de 730 quilômetros.

Do ponto de vista do tráfico de drogas, isso torna o Estado um território estratégico.

Não à toa, quase todas as cidades da região têm registro de presença de facções.

“Temos uma dificuldade um pouco maior do que outros estados, em relação ao fluxo de fronteira, mas é um problema que ultrapassa as questões de Mato Grosso. A droga que passa por aqui é droga que vai abastecer outros estados. Não vejo isso interferindo de maneira considerável no tráfico local. Temos uma situação de fronteira que é extremamente complexa”, afirma Murta.

CESTAS EM CASA DE PROSTITUIÇÃO - As cestas apreendidas na região da fronteira foram encontradas, à época, numa casa de prostituição na cidade de Pontes e Lacerda (448 km a Oeste de Cuiabá).

O local, conforme a investigação, pertenceria a uma facção criminosa.

A proprietária não revelou a origem dos produtos.

Por meio do motorista do caminhão, o delegado conseguiu chegar ao estabelecimento onde os itens foram comprados e confirmou o vínculo com a facção.

“A prática de assistencialismo, que já se tornou uma forma de atuação das facções, é muito prejudicial para a sociedade, porque, enquanto passa a sensação de que os criminosos cuidam da população mais desassistida, aproxima as nossas crianças do tráfico de drogas e desse meio que é extremamente violento”, expôs, em abril do ano passado, o delegado Gustavo Belão, durante uma outra apreensão de cestas em Cuiabá.

Em geral, depois de apreendidas, as cestas básicas são entregues pela própria polícia a instituições de caridade nos municípios respectivos.

Esse procedimento é adotado, após autorização judicial e averiguação da validade dos itens alimentícios.

Em agosto do ano passado, por exemplo, 149 cestas foram entregues a entidades de Nortelândia (253 km ao Norte da Capital).


Edição edição 16957




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