Azul
Sábado, 02 de Junho de 2001, 12h:19
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MENINOS
Do futebol à tesoura e linha
Alisson Garcia Bravo, 19, era o tipo de garoto que gostava de jogar bola na rua e não tinha a mínima noção sobre o assunto moda. Hoje, produz peças para o grupo de pop romântico KLB, um dos maiores sucessos de venda atualmente no Brasil, sob a supervisão da stylist Idê Zerbino. A saga do rapaz começou em 1998, quando, aos 16 anos, descolou um emprego de vendedor em uma loja da Galeria Ouro Fino, que reúne marcas modernas e alternativas. "Lá, conheci um amigo, que me convidou para ser seu sócio e vender umas camisetas no Mercado Mundo Mix", conta. Já mais envolvido no mundo da moda, Alisson começou a desenvolver estampas para as camisetas e, depois, também a produzir as peças. "Aprendi, errando, a cortar e a costurar. Meu trabalho é de alfaiataria." Segundo ele, a mãe não estava gostando nada daquilo. "Falava para eu estudar, que moda não tinha futuro", lembra Alisson, que largou a escola no segundo ano do ensino médio. Hoje, ela ainda não engole direito a profissão do filho. Em 1999, Alisson passou a vender suas peças na loja Sanatório, na galeria. Foi quando realmente começou a desenhar e a produzir as peças. "Era experimental. Como ficava em cima das costureiras por causa dos prazos, aprendi muito com elas." No começo do ano passado, ele saiu da Sanatório e montou um ateliê na galeria, que hoje funciona na sua casa, na Vila Matilde (zona leste de São Paulo). É lá que faz peças para o KLB. "As do (integrante) Leandro são inspiradas no visual do grupo australiano Savage Garden, que ele adora. O meu estilo está no corte", garante. (AP) Irmãs reciclam e personalizam Filhas de costureira, Ariane e Lilian criam moda própria As irmãs Ariane e Lilian Charlier Sarubo, respectivamente com 14 e 15 anos, aproveitam as sobras do trabalho da mãe, Delza, que é costureira, para transformar e criar as próprias roupas. "Nós ganhamos muitas roupas usadas de filhas das amigas da minha mãe, mas, quase sempre, as roupas não servem, então temos que modificá-las", explica Lilian. Assim, um jeans apertado recebe um corte na lateral -do cós à barra- e a aplicação de uma tira de couro nessa fenda, que vai se abrindo próxima à barra da calça, que vira uma boca-de-sino. Elas também costumam cortar a calça na altura do joelho e emendar com tecidos que sobraram do trabalho da mãe. Mas as modificações não obedecem apenas a uma questão funcional. "Prefiro roupas com um toque pessoal, que ninguém vai achar para comprar", completa Lilian. As irmãs, que ajudam a mãe na parte de acabamento das peças, contam que sempre surpreendem as amigas com as roupas. "Elas perguntam quanto custa para fazer, daí eu passo o trabalho para a minha mãe, que faz uma peça igual", conta Ariane. A família mora em Boituva (interior de SP). A outra irmã, Sarah, 16, deu um tempo da costura para se dedicar ao vestibular. A principal inspiração das garotas são as novelas. "Não copiamos as roupas, apenas tiramos idéias do visual das personagens e adaptamos para o material que temos", diz Ariane. Elas também fazem bijuterias para vender na escola, como pulseiras de couro com tachinhas. Ariane está na 8ª série, e Lilian, no 1º ano. Atualmente, Ariane tem ajudado mais o pai, Almir, 42, que planta cogumelos, enquanto Lilian trabalha com a mãe. Tudo no período da tarde, pois estudam pela manhã. "A gente se esforça ao máximo para pagar a escola particular das meninas, pois escola pública não dá", afirma Delza, 35. E analisa o talento das filhas: "A Ariane tem mais senso de medida e trabalha melhor na máquina, e a Lilian é mais criativa". Outra que adora transformar as suas roupas é Bruna Rodrigues Gamboa, 13, estudante da 7ª série. Jogar água sanitária nas blusas para manchá-las e mudar o uniforme do colégio é com ela mesma. "Já recebi um comunicado da escola porque abri uma fenda na barra da calça do uniforme e emendei com moletom, pois a boca era muito apertada, e porque cortei a gola e as mangas da camisa", conta Bruna. Ela estuda no colégio Santa Marcelina, das mesmas freiras que têm a faculdade de moda que revelou gente como Alexandre Herchcovitch. A mãe, Reviane, proprietária da loja Kozmic Blues, na Galeria Ouro Fino, diz que, no primeiro momento, ficou preocupada. "Depois, achei que ficou bem mais legal", diz. "Gosto de ser diferente, e uma roupa transformada fica melhor", dispara Bruna. Ela gosta de desfiar barra de calça jeans, tirar os bolsos, colocar tampa de lata de refrigerante nos cadarços do tênis e usar clipes coloridos no cós da calça. E já decidiu: "Vou fazer a faculdade Santa Marcelina. Quero ser estilista". (AP)