Às vezes cometemos crimes sem saber, seja motivado pela ignorância, ou vaidade, até mesmo pela luxúria. Outros sabem dos crimes que cometem e fazem de conta que não foram com eles. Cometem por não ter amor. Vingança ou desprezo. Sei lá. Coisas de crime. Há 42 anos a comunidade cuiabana deixou que cometessem um crime bárbaro que atormenta até hoje a memória dos que viveram naquela época. Em 26 de setembro de 1968 foi implodida a antiga Catedral Metropolitana, dando lugar para a igreja que hoje conhecemos, na Praça da República, bem no centro de Cuiabá. Motivados pela desculpa de que as paredes não estavam agüentando a estrutura, o pensamento modernista da época decidiu por abaixo a estrutura construída em 1722. Tamanha a incoerência dos motivos, que precisaram de três explosões de dinamite para ruir o prédio, e não foi o bastante, sendo necessária a entrada de tratores e martelos para derrubar as últimas paredes. Um crime contra o patrimônio histórico e cultural de um povo. Com tanto lugar para construir a nova igreja, foram encucar logo com a Metropolitana Basílica do Senhor Bom Jesus. Sangue de cultura derramado no chão cuiabano. Estamos, toda a sociedade cuiabana, prestes a cometer outro crime de igual proporção: Vamos deixar implodir o Verdão. O estádio de futebol José Fragelli foi construído em 1976, na administração de José Garcia Neto. Naquela época, quando a população prestigiava o futebol cuiabano, os jogos de Mixto, Operário e Dom Bosco eram assistidos por mais de 44 mil torcedores. Hoje, o estádio é pouco utilizado, ficando muitas vezes ás moscas. Abandono que ecoa nas arquibancadas da arena e rebate no travessão enferrujado. Um gol que permanece na garganta do torcedor, produzindo um nó difícil de engolir. Nessa onda de desamparo, depois de Cuiabá ser escolhida para ser umas das sub-sede da Copa de 2014, o comitê organizador decidiu por abaixo a estrutura do Verdão, diante da mesma desculpa narrada para implodir a Catedral Metropolitana. A construção não comportará os jogos mundiais e precisamos modernizar o projeto. E não tem chororô, o último jogo foi narrado e as luzes já se apagaram. Quem bedjô bedjô, quem num bedjô num bedjâ mais. Ainda há tempo para impedirmos esse assassinato? Um estádio como o Verdão, com a estrutura funcional, recebendo todos os anos os fiéis do Vinde Verde, com o gramado suplicando por uma partida de futebol, deveria ser destinado à sua função, em vez de rejeitarmos em prol do modernismo. Investimos milhões em sua construção, e durante muito tempo foi orgulho da cidadania do Vale do Rio Cuiabá. Tanto lugar para construir um novo estádio, uma nova arena que fará exemplo no mundo inteiro, escolhem destruir nosso Verdão, local irrigado com a pequena Avenida Agrícola Paes de Barros, com trânsito louco e caótico nos pequenos eventos de natal. Luxúria? Vaidade? Ignorância, ou crime premeditado e com dolo de destruir o patrimônio cultural? Não sei, o que sei é que devo protestar. Narrar minha inconformidade diante de tamanha audácia e desrespeito pelo que acho ser memória cuiabana. Não nasci aqui na terra, mas daqui alimento minha família. Do povo daqui devo respeito, gratidão e amor pelo carinho da acolhida. Todos os cuiabanos devem se manifestar. Deixar derrubar o Verdão é omissão que ficará por séculos na memória de nosso povo. Por favor, não deixemos isso acontecer. Manifestem-se filhos de Moreira Cabral. * FABIANO RABANEDA é Advogado
[email protected]