ARTIGO
Terça-feira, 18 de Agosto de 2009, 21h:20
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GABRIEL NOVIS NEVES
Última esperança
O Brasil todo está estarrecido com os últimos escândalos de Brasília. Como o exemplo vem de cima, a nossa cidade vive momentos de perplexidade com tantas evidências negativas repercutindo nacionalmente. O momento não é de procurar culpados. Temos que ter coragem para mudar este quadro político que tanto nos envergonha e contamina as novas gerações. Estamos vivendo o fim do mundo da ética, da correção, do respeito, da vergonha, e principalmente, do cuidado com a coisa pública. É uma fotografia, agora divulgada, da nossa hipocrisia centenária. Somos todos culpados por tudo que está acontecendo no Brasil e no nosso Estado, assim como somos os únicos capazes de mudar este quadro. O foco da polícia e justiça federal está direcionado aos danos materiais do patrimônio público, demonstrados através de licitações não republicanas. A simples aplicação da lei escandalizou a nossa população que acreditava que lei no Brasil fora feita para punir somente os pobres. O Brasil, mesmo a passos de cágado, está mudando e muita gente boa não percebeu ainda esta mudança. Ouço comentários os mais diversos sobre essa operação que tem nome ao contrário da empresa de águas. Há muitas dúvidas entre os próprios formadores de opinião. Uns acham ser a ação punitiva parte de uma estratégia política para benefício de certos grupos. Não pertenço a esta corrente. A população pobre e necessitada mais uma vez é a grande prejudicada com esta anarquia toda. Os seus problemas tão cedo não serão resolvidos. Terão que conviver não sei por quanto tempo entre buracos, ruas intransitáveis e o pior, milhares de trabalhadores que ficarão sem trabalho. Algumas construtoras com certeza irão à falência produzindo mais desempregos. Enquanto observamos esta guerra podre sem armas nucleares, fica aquela indagação: e os nossos outros problemas tão importantes e urgentes? E aqueles que são responsáveis por estas situações mais sérias e cruéis? E aqueles que, com a sua indiferença transformaram o nosso estado e a nossa cidade em um silencioso campo de tortura humana só comparável as praticadas por Hitler na segunda guerra mundial? A imprensa tem liberado uma ou outra notícia sobre esta catástrofe. Os bons estão mudos. Diante de um problema sério, como a saúde pública, os nossos governantes não sentem o drama, mas sabem e têm condições de chegar ao local adequado para resolverem os seus sofrimentos. Qualquer representante do povo tem condições de consultar as planilhas dos aeroportos de São Paulo e a relação das personalidades públicas internadas nos melhores hospitais da maior cidade da América Latina. A nossa situação na área da saúde pública chegou ao fundo do poço. Um hospital privado de pequeno porte com setenta e quatro leitos, focado em duas especialidades médicas, atendeu no seu último plantão de vinte e quatro horas no pronto atendimento, trezentos e cinqüenta e três pessoas. Desses, duzentos e trinta e seis foram crianças e cento e dezessete adultos. No período noturno foram socorridas sessenta crianças. Não existe nenhuma pandemia em Cuiabá. Apenas o governo está ignorando as necessidades do povo. E todos estes clientes não são do SUS, responsáveis por oitenta por cento do atendimento médico. Não percebo nenhuma vontade política para resolver ou minorar esta desgraça. Será que a justiça federal deverá também bloquear recursos para obras supérfluas e ficar com eles para socorrer a população nas suas necessidades básicas? É a nossa última esperança! * GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT