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ARTIGO
Terça-feira, 15 de Abril de 2008, 21h:34

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

UFMT: sucessão à vista

No próximo dia 18, depois das duas gestões mais antidemocráticas da UFMT, a principal universidade pública do Estado escolherá um novo reitor, via consulta eleitoral. O caráter das eleições será consultivo, pois o governo Lula/PT não honrou o compromisso com as universidades: legalizar o processo de eleições diretas. Por isso, o resultado da consulta terá de ser referendado pelo conjunto dos órgãos colegiados superiores. Na seqüência, a instituição enviará uma lista tríplice ao governo. O presidente da República poderá escolher qualquer um da lista. A manutenção desse ranço ditatorial visa à continuidade do controle político-partidário nas universidades públicas. De qualquer forma, três docentes estão na disputa: Maria Lucia; João Valente; Domingos Tabajara. Em meu último artigo, refutei a apelação do gênero tentada por alguns em benefício da candidata mulher. Na UFMT, não é isso que define a escolha de reitor. Disse que dos vinte anos que estou na UFMT, poucas foram as mulheres que se destacaram como líderes políticas. Do lado masculino, a afirmação é igualmente verdadeira. Na essência, são os arranjos político-partidários os dispositivos mais "eficientes". Muitos dos que já foram reitores não foram líderes. No limite, um ou outro apresentou maior desempenho como gestor. Numa universidade, ser líder não é, necessariamente, ser apenas um bom administrador ou ter lá sua eficiência na própria academia. Não que ambas as características sejam dispensáveis. Todavia, a liderança em tal espaço pressupõe encontrar quem discuta suas reflexões políticas contínuas e debata suas produções acadêmicas. Dos antigos reitores - por meio da crítica escrita - quantos continuam a pensar a universidade, depois que deixaram o cargo? Eventualmente, um. Dos atuais candidatos, fora este momento em que buscam votos, qual tem o hábito de pautar a crítica muito além de seus espaços de trabalho? Nenhum. Se os três colegas são dedicados à UFMT, em minha análise, falta a eles a condição da liderança, característica principal que deveria nortear qualquer candidatura. Contudo, isso não retira o mérito dos três de terem disponibilizado seus nomes; e sendo ou não líderes, excluindo a opção legítima do voto nulo, será preciso depositar confiança em um deles. Para isso, critérios são fundamentais. Como professor, destaquei alguns para me nortear: a) proximidade com as demandas do Movimento Docente (MD), organizado no ANDES-SN (Sind. Nac. dos Docentes); b) proximidade comprovada com a atual antidemocrática administração; c) vinculações políticas; longe de se tratar de patrulha ideológica. Tal critério é importante para resguardar a questão da autonomia da instituição. Dessa forma, não foi difícil saber em quem não votar. Na abertura do debate (09/04) entre os três, a Comissão Eleitoral leu uma nota, na qual imputava à candidata Lucia estar se beneficiando da estrutura institucional. Ela confirmou o uso indevido com gesto de cabeça. Isso não ocorreria sem a conivência da administração. Essa atitude não é democrática. A UFMT já padeceu muito com as duas últimas gestões; não merecia continuar na mesma linha. Dos acordos políticos, a cúpula petista do estado parece apoiar a candidata. Por tabela, o governo estadual pode ser anexado a esse conjunto; afinal, PT e governador jogam no mesmo campo e com jogadores em comum. Por sua vez, no debate já referido, o candidato Valente foi identificado como próximo de alguns políticos pouco apreciados por muita gente. Houve quem “brincasse” com a junção de seu nome com o de um deputado estadual. Valente negou a acusação, embora já tenha sido secretário de educação de Cuiabá, um cargo político; portanto, de confiança de alguém. Por outro lado, não há evidências de que tenha proximidade com a administração atual. Do MD, se não tem sido um militante também não o tem atropelado. Do candidato Tabajara, não houve acusação alguma; nem vaias. Aproveitou para dizer, textualmente, que o modelo de universidade a ser seguido é o mesmo que defende o MD, ou seja, universidade "pública, laica, democrática e socialmente referenciada". Faltou dizer que seria "gratuita", um termo indispensável para o público, de fato. Seja como for, foi o que mais se aproximou desse critério. Se vencer e se irá cumprir só a história poderá dizer. Em âmbito nacional, muitos já disseram, mas, infelizmente, não cumpriram. ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16966




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